A crise e as profecias!


Uma das mais célebres proposições da sociologia, elaborada por William Thomas, define o seguinte: “se, e quando, as pessoas definem uma situação como real, esta tende a tornar-se real nas suas consequências”. Este mecanismo da chamada profecia que se auto-realiza (outra designação da conhecida fórmula de Robert Merton), pode ser ilustrado nesta pequena história sobre a “Crise” que ouvi algures e aqui recrio e adapto livremente, apenas com o propósito de ilustrar o que pretendo dizer. ... Era uma vez um homem simples que vivia à beira de uma estrada com muito movimento de carros e aí vendia os seus cachorros quentes. Não tinha rádio, televisão e nem lia jornais, nem recebia as últimas notícias no telemóvel, mas produzia e vendia bons cachorros quentes. Preocupava-se com a divulgação do seu negócio e colocava alguns cartazes pela estrada, oferecendo o seu produto em voz alta e as pessoas compravam. Pela qualidade do produto este tornou-se famoso e as suas vendas foram aumentando. Cada vez mais, ele comprava o melhor pão e as melhores salsichas. A certa altura necessitou também de adquirir mesmo um fogão maior para conseguir responder a uma cada vez maior procura. O negócio prosperava... Os seus cachorros quentes eram, reconhecidamente, os melhores em toda a região! Conseguiu assim com o seu labor árduo poupar o suficiente para que o seu filho pudesse estudar e conseguiu mesmo que este, depois de crescido, fosse estudar economia e gestão numa das melhores faculdades do país. Uns anos mais tarde o seu filho regressou, já formado em Economia e notou que o pai continuava com a vida de sempre à volta da venda de cachorros à beira da estrada. Considerou que era o momento de ter uma conversa com o pai e perguntou-lhe: o pai não ouve a rádio nem vê as notícias na televisão? O pai não lê os jornais nem está atento ao que se passa na economia? Há uma enorme crise no mundo que se avizinha e a situação do nosso país é crítica e vai ficar pior. Vamos todos ter gravíssimos problemas. Depois de ouvir as considerações do filho (que era economista, lembremo-nos), o pai pensou: (…) “Bem, se o meu filho que estudou economia, lê jornais, vê televisão e está atento ao que se passa no país e no mundo, acha que há uma crise eminente, então só pode estar com a razão!” Assim, com receio da crise, o pai começou a procurar um fornecedor de pão mais barato (e, claro, de pior qualidade) e começou também a fazer outros cortes comprando salsichas também mais baratas (que eram, também, piores). Para economizar, parou de fazer qualquer publicidade na estrada. Mais, abatido psicologicamente com a notícia da crise eminente deixou mesmo de oferecer os seus cachorros em voz alta como costumava fazer e já se tinha tornado numa imagem de marca. Tomadas essas medidas de gestão, a conselho de um economista, claro, as vendas começaram a cair e a cair, cada vez mais, até que chegaram a níveis insuportáveis e o negócio de cachorros quentes do velho homem, que outrora gerava recursos e prosperidade até para permitir ao filho estudar economia numa boa universidade, acabou por fechar porque... faliu! O pai, triste, disse então ao filho: “Não podias estar mais certo, meu filho, nós estamos realmente no meio de uma grande crise!” E comentou com os amigos, orgulhoso: “Ainda bem que eu consegui que o meu filho estudasse economia, ele é que me avisou da crise...”! Sem mais comentários!


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