As desigualdades e o Estado (a que chegámos)!


A formação dos Estados foi sempre precedida por um processo de desigualdade de acesso a recursos e uma vez formados, os Estados, ou quem sempre os controlou, nunca procuraram nivelar a riqueza. Pelo contrário. Fosse pela força ou pela lei, as desigualdades foram sempre exarcebadas, tanto as existentes como as novas formas entretanto criadas.

Portanto, olhando para a História, durante o processo de formação e desenvolvimento dos aparelhos de Estado, estes foram sempre capturados por grupos que conseguiram criar oportunidades para a acumulação e concentração de recursos materiais nas suas mãos.

Quer tomando medidas de proteção de atividades comerciais, quer através da criação de novas fontes de recursos e ganhos pessoais e grupais, os recursos e o seu acesso foram sempre reservados para quem estava mais próximo do exercício do poder político e o apoiava.

Concluí-se que as desigualdades político-económicas evoluíram, portanto, em conjunto, num efeito de “espiral ascendente” tornando mais provável os impactos interativos em que o incremento de uma variável (económica) permitiu e produziu o correspondente incremento na outra (política), alimentando-se mutuamente. Aqueles que conseguiam mais poder político captavam mais apoio económico, e quem conseguia mais poder económico captava mais apoio político. E ainda hoje é assim!

Constatamos por isso que a espécie humana desenvolveu estratégias e formas de governação em que alguns indivíduos e grupos conseguiram e conseguem constranger e limitar o comportamento da maioria, nomeadamente através da definição de regras e do alcance de posições de domínio e prestígio. Por isso, e neste quadro, é expectável que os poderes económicos e políticos tenham sempre andado de “braço dado”, por muito que os seus representantes aleguem o contrário.

Uma vez que os membros da nossa espécie criaram Estados e com eles regras, é natural que tenham favorecido as regras que serviram os seus interesses reprodutivos e inclusivos, não sabendo os próprios indivíduos que era por este motivo que os definiam, aprovavam e defendiam. E, de resto, continuam a fazê-lo! E continuam a não sabê-lo!

Seja pela espiral ascendente do poder político e económico, seja pela aparente incapacidade de as sociedades contrariarem este movimento, seja mesmo pelo desinteresse dos que com isto beneficiavam, em alterar a situação, a longo prazo, a desigualdade teve (e parece continuar a ter) tendência para aumentar e não para diminuir, mesmo considerando que os recursos hoje abundam, bem como a facilidade sem precedentes do seu acesso estar muito mais generalizada atualmente.

O verdadeiro nivelamento económico, sempre que aconteceu ou vier a acontecer, faz-se por baixo e normalmente os adventos que lhe são subjacentes não são bonitos, como a História nos ensina.

A questão é a de saber se será que aprendemos a lição da História. Porque, diz-se que aqueles que desconhecem a História estão condenados a repeti-la e aqueles que a conhecem estão condenados a testemunhar a sua repetição… pelos que a desconhecem.

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