Cui Bono: a quem beneficia o que fazemos?


Uma das questões centrais no raciocínio em ciência política, e não só, tem a ver com a questão de saber, ou compreender, quem ganha o quê, ou seja, quem beneficia com o que acontece. Esta pergunta sintetiza-se na expressão de origem latina Cui Bono que traduzida literalmente significa “a quem beneficia,” e é,de resto, uma das primeiras perguntas na criminologia porque procura saber qual o motivo de qualquer crime.

Contudo a expressão não é apenas de interesse forense. Aplica-se à generalidade dos nossos comportamentos e das nossas decisões, mesmo aqueles que aparentemente não revelam um interesse imediato, ou são apresentadas simplesmente como altruístas ou como sendo em prole do chamado “bem comum”.

Ainda que não pensemos nisso, todos nós nos motivamos para seguir a nossa agenda de modo a beneficiar-nos, direta ou indiretamente, no momento ou em diferido, ou em beneficiar aqueles que nos interessam ou que nos preocupam porque fazem parte da nossa rede próxima ou do nosso círculo de confiança.

Note-se que este "egoísmo" não é necessariamente algo negativo, em si mesmo, mas sim o resultado da Evolução que nos projetou para promover os nossos interesses e os de todos aqueles que estão perto de nós e que nos interessa também defender ou cuidar. Chama-se a isso o "interesse inclusivo"!

Portanto, a resposta à pergunta “porque razão alguém faz algo” pode sempre começar por uma qualquer resposta assim: “porque acredita que isso o beneficia a si, aos seus, ou àqueles que lhe interessam."!

Esta é uma das razões pelas quais noutro local escrevi “(…) se ouvir alguém que se candidata a um cargo de liderança dizer que o faz «sem nada querer em troca» ou que «não tem nenhum interesse», simplesmente, sorria. Isso faz parte do autoengano de quem o diz, porque isso permite ao próprio não só acreditar no que verbaliza como tentar fazer os outros acreditar também.” (Bioliderança, 2018).


Mas não fique desiludido com a natureza humana. Ela é o que é e não o que gostaríamos que fosse. Por isso desconfie daqueles que advogam constantemente o “bem comum” ou o “fazer o bem sem olhar a quem”. Os que afirmam isso, normalmente, mesmo que de forma escondida ou inconsciente, procuram desde logo servir a sua agenda ou a dos que os preocupam.


Eu sei que é chocante dizer e escrever isto e até se pode voltar contra mim, mas também eu me iludo muitas vezes com os meus próprios motivos. Tal como o leitor. O que muitas pessoas procuram, desde logo, é sentir-se bem consigo próprias quando fazem algo em prol do chamado “bem comum” ou ganharem a admiração dos outros, porque uma reputação altruísta sempre foi, evolutivamente falando, uma vantagem competitiva no quadro da seleção natural.

A propósito disto, numa obra notável de R. Kurzban e J. Weeden que se chama (traduzindo) “A agenda oculta da mente política: como o próprio interesse molda as nossas opiniões e porque razão nós não o admitimos” (Op. Cit.), os autores argumentam que quando se trata de opiniões em política, muitas vezes percebemos as nossas próprias crenças como justas e socialmente benéficas, ou seja, as melhores, enquanto as opiniões contrárias às nossas não passam de argumentos ao serviço de interesses (dos outros)”. Porém, e na verdade, a maioria das opiniões políticas, quaisquer que sejam, são todas governadas pelo auto-interesse, mesmo que geralmente as pessoas que as verbalizam disso não se apercebam.

Parece-me que a manutenção de uma visão simplista e maniqueísta de um mundo dividido entre "bons e maus" não nos ajudará a resolver os graves problemas que todos enfrentamos num planeta que é (ainda) a única casa que temos.

Seria bom que as argumentações políticas, por um lado, trouxessem desde logo uma declaração de interesses de quem as emite, porque isso tornaria mais fácil tomar decisões e partido das mesmas e, por outro e sobretudo, baseassem os seus argumentos em evidências científicas.

Afinal, gostemos ou não, ainda não encontrámos melhor forma do que a ciência para compreender e explicar o mundo, nós mesmos, e o nosso próprio conhecimento, enquanto parte dele.

Referências Finuras, P. (2018). Bioliderança: porque seguimos quem seguimos? Lisboa: Edições Sílabo Kurzban, R. (2010). Why everyone else is a hypocrite. New Jersey. Princeton University Kurzban, R. & Weeden, J. (2016). The Hidden Agenda of the Political Mind: How Self-Interest Shapes Our Opinions and Why We Won't Admit It. New Jersey: Princeton University Press

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