Da discriminação salarial entre homens e mulheres: será que a narrativa está (mesmo) bem contada?

Uma hipotética companhia aérea (vamos chamar-lhe XFly), reportou em 2018 um desvio médio no pagamento hora entre homens e mulheres de 55%.

Visto assim, significa que nesta empresa os homens ganham, em média, mais 55,% do que as mulheres. Mais uma vez, posto assim, os dados são chocantes e na verdade é muitas vezes assim que são apresentados estudos sobre o chamado fosso (gap) salarial entre homens e mulheres.

Mas não, não há nenhuma conspiração para os homens ganharem mais 55% do que as mulheres, nem sequer discriminação por género nesta empresa. Para perceber o que se passa e porque é que há tanta desinformação sobre o desvio salarial entre homens e mulheres quando é colocado de uma forma simplista, é preciso perceber que a diferença não está no género mas sim no trabalho executado e em tudo o que lhe está associado (exigências, responsabilidade, experiência, capacidades, competências, qualificações, etc., etc.).

Neste caso, é apenas porque a maioria do pessoal de cabine (ou assistentes de bordo) são mulheres e só uma minoria são homens, tal como o pessoal técnico (pilotos) são na esmagadora maioria homens e só uma pequena minoria é que são mulheres, que se deve esta discrepância.

Não tem, portanto, nada a ver com género, mas apenas com o tipo de trabalho executado e o que lhe está associado. Se os géneros ocupassem nas proporções inversas os postos de trabalho em questão e na forma como são pagos, teríamos as mulheres a ganhar em média mais 55% do que os homens. E também aqui não teria nada a ver com o facto de serem mulheres, mas sim com o facto de elas executarem um trabalho que é mais bem remunerado.

Em síntese, e falando claro, é apenas o número muito elevado de mulheres empregadas dentro desta companhia aérea como tripulação de cabine e, do mesmo modo, o número relativamente pequeno de mulheres empregadas como pilotos, que produz o fosso no total dos salários pagos. 

É necessário acabar com a narrativa simplista de que as mulheres, só por o serem, estão condenadas a ganhar menos do que os homens e temos de o fazer de forma rigorosa e didática.

Urge informar com rigor as jovens que entram no mercado de trabalho que o salário reflete o tipo de trabalho realizado e não andar a passar a ideia de que, façam o que fizerem, ganharão sempre menos do que os homens apenas porque são mulheres.

Não é do fosso salarial entre géneros que se trata, mas sim do fosso salarial entre tipos de trabalhos, pagos de forma diferente, seja para eles ou para elas.

Basta de desinformação sobre a disparidades salarial entre homens e mulheres sem contar a história toda. É que isso só contribui para uma narrativa negativa, além de que falsa, em que a mulher não tem alternativa a não ser enfrentar o fado da discriminação salarial como uma quase certeza, apenas porque é...mulher!

Na verdade, com este tipo de narrativa está-se apenas a contribuir para manter e reforçar uma visão distorcida da realidade da esmagadora maioria das empresas.

PS: Embora colocada aqui como fictícia, esta história é baseada num caso real.

2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Krisis

Krisis significa originalmente decisão. É um termo grego importado da medicina significando o momento decisivo ou de viragem que possibilitava o diagnóstico. Nos tempos atuais, curiosamente, a noção d

Teorias da conspiração

O que motiva as pessoas a acreditar em  "teorias da conspiração"? 1) Gostamos de boas histórias; 2) Não gostamos de explicações simples para problemas complexos; 3) Necessitamos de compreender o mundo