E tu, será que vês o que eu vejo?


Define-se o enviesamento confirmatório como “a tendência para procurar, selecionar e reter, informações que suportem o que acreditamos ou aquilo em que queremos acreditar.” Todos estamos sujeitos a isto.


Assim, é natural que quando olhamos o mundo à nossa volta a nossa atenção seja subtilmente canalizada, atraída, e de algum modo "traída", por aquilo que nos interessa ou queremos ver.


Neste processo altamente complexo de seleção e retenção de informação é também natural que as nossas motivações e interesses possam desempenhar algum papel de forma inconsciente.


Muitos de nós pensamos que quando olhamos para um mesmo objeto que se mantém igual, dificilmente pensaremos que a motivação do observador possa influenciar aquilo que é visto. Mas não é bem assim, pelo menos em certas situações em que a informação ou o estímulo é relativamente ambíguo.


A equipa de investigação de Nathan Heflick da Universidade de Lincol no Reino Unido,[1] procurou saber até que ponto os interesses e motivações daquele que vê, afetam aquilo que é visto. Chamaram a esta experiência: “visualização daquilo que se deseja”. No fundo, e em resumo, a pesquisa realizada sugere que as nossas motivações e interesses também podem influenciar as perceções e aquilo que realmente vemos (ou julgamos ver). Por outras palavras, qualquer estímulo pode ser processado de forma ligeiramente diferente quando os nossos objetivos, motivações, valores e interesses são alterados ou influenciados.


Em vários estudos realizados foram mostradas imagens ambíguas aos participantes. Num desses estudos, foi apresentada uma imagem em forma de “flash” que tanto podia ser percebida como o número 13 ou a letra B. Até aqui nada de especial. Porém, antes de a imagem ser projetada, os participantes das experiências foram informados e estimulados com a ideia de que iriam receber uma bebida que seria agradável ou desagradável conforme o resultado de uma imagem que seria fornecida a seguir por um computador. A uns participantes foi dito que no caso de o computador mostrar uma letra, receberiam em troca a tal bebida de sabor agradável, e o contrário caso fosse mostrado um número. A outros foi informado que receberiam uma bebida agradável se o computador gerasse um número, e o contrário se fosse uma letra também.


Em síntese, a experiência criou condições para que metade dos participantes estivessem estimulados para ver uma letra e outros para ver um número.


Resultado? Quando colocados na expectativa de ver uma letra, a que corresponderia uma bebida saborosa, mais de 70% (respetivamente, 72 %) viu mesmo uma letra, enquanto menos de 30% (respetivamente 28%) referiu ter visto um número. E quando colocados na expectativa contrária, ou seja, de ver um número, 60% viu de facto um número e 40% viu uma letra.


Os resultados sugerem, portanto, que quando as pessoas querem ver uma letra para que possam receber uma bebida saborosa, tendem a fazê-lo e quando querem ver um número, com o mesmo objetivo de ser recompensados com a bebida saborosa, também tendem a fazê-lo.


Noutro estudo semelhante, realizado posteriormente, e que serviu de controlo do primeiro, foi mostrado aos participantes o número 13 e a letra B maiúscula, em vez de uma imagem ambígua. Nesta situação os participantes referiram que viam ou o número ou a letra conforme era mostrado, sem qualquer dúvida, e foi também referido que não havia nenhuma contrapartida agradável ou desagradável pelo facto de aquilo que fosse visto pudesse ser um número ou uma letra. Deste modo, isto permitiu confirmar que os participantes do anterior estudo não estariam a mentir para obterem a bebida que queriam.


O que é que podemos concluir daqui? Que se forem considerados em conjunto, os estudos sugerem que pelo menos em situações consideradas ambíguas, a nossa perceção e a nossa visão podem ser ligeiramente alteradas com base nas nossas motivações e interesses.[2]

Em resumo, a nossa perceção parece ser subtil e inconscientemente influenciada ou distorcida pelos nossos interesses e motivações, ou seja, por aquilo que queremos ver.

Já imaginou o impacto que isto pode ter no nosso dia a dia e na alteração das nossas perceções?


[1] Vd. Nathan Heflick in Psychology Today, de 29/9/2017

[2] Curiosamente, outros trabalhos de investigação subsequentes publicados também por esta equipa, descobriram ainda que os objetos que as pessoas desejam, tendem a ser vistos como estando mais próximos de nós do que realmente estão, e o mesmo é válido para qualquer estímulo visto como uma ameaça ou um perigo.

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