Haverá culturas superiores e inferiores?


“Se me perguntares como são as pessoas aqui, tenho que te responder.Como em toda a parte”.

Goethe


No âmbito de um estudo sobre o nacionalismo e identidades nacionais, o Pew Research Centre (PRC) realizou entre 2015 e 2017 um vasto inquérito junto de 56.000 adultos respondentes que constituíram amostras nacionalmente representativas de 34 países em toda a Europa para saber, entre outras coisas, qual era a percentagem de inquiridos que concordava ou discordavam da seguinte afirmação:

“O nosso povo não é perfeito, mas a nossa cultura é superior à dos outros.”

Uma vez que estão abrangidos quase todos os países europeus, se lhe perguntarem em que país(es) pensa que mais de 50% da população concorda com esta afirmação, quais os países que elege? E se lhe perguntarem, ao contrário, em que país (es), a maioria discorda desta frase, quais pensaria logo?

Acredite que pode ficar surpreendido.

Embora com exceções, são os europeus da Europa Central e Oriental quem estão mais inclinados a afirmar ou a acreditar que “a sua cultura é superior à dos outros”. Os oito países onde esta atitude é mais prevalente situam-se todos geograficamente no Leste: Grécia, Geórgia, Arménia, Bulgária, Rússia, Bósnia, Roménia e Sérvia.


De facto, e a olhar para os resultados, verifica-se que as atitudes mais “chauvinistas” face às outras culturas registam-se em vários países e em diferentes locais na Europa. Por exemplo, a Roménia regista 66% de concordância com a frase, a Bulgária e a Rússia com 69%, estão também no topo e o recorde vai para os Gregos, onde quase 90% das pessoas (89% em bom rigor) concordaram com a declaração. Já na Escandinávia o país onde as pessoas maioritariamente também concordam com esta afirmação são os Noruegueses, quase com 60% (em bom rigor, 58%) . E em Portugal? Por cá, 47% concordam também que a nossa cultura é superior e 48% discordam.

Entre os inquiridos que mais discordam estão os Espanhóis (só 20% concorda que a sua cultura é superior), seguindo-se os Belgas (com 23% a concordar) e os Suecos (com 26% que concorda). Estes são os únicos três países onde menos de 30% da população inquirida concorda com a afirmação e acredita na superioridade da sua cultura.

Alguns pontos merecem aqui reflexão, na minha opinião. O primeiro é que não se sabe realmente ao que é que as pessoas estão a responder nem o que cada uma entende por “cultura”.

Em segundo, não se sabe a que é que, concretamente, se refere a superioridade (porque a haver, superioridade ou inferioridade só existe em relação a alguma coisa concreta).

Assim, a não ser perceber o que poderá ser a crença coletiva de cada povo no seu valor “cultural,” e sem se saber exatamente a que é que se está a responder quando se fala em “cultura,” pouco mais se adianta com este tipo de investigação a não ser distorcer estereótipos e transformar representações coletivas em preconceitos.

A ideia implícita de falar em superioridade e inferioridade cultural parece-me bastante infeliz por três razões. Primeiro, porque não acrescenta nenhum valor às relações entre as pessoas e as sociedades que produzimos e as crenças que fixamos acerca de “nós” e dos “outros”. Segundo, porque só serve para acicatar ódios, violência, segregacionismo e tudo aquilo que há de pior na natureza humana. Finalmente, em terceiro lugar, porque façamos o que fizermos, a diversidade cultural não é um capricho coletivo nem uma simples escolha. É uma condição da evolução que permite a nossa continuidade.

Nós, somos “nós,” e as nossas circunstâncias. E isto aplica-se a todas as culturas humanas.

A diversidade, cultural ou outra qualquer, é uma forma de garantir o possível!

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