Mentir ou não mentir, eis a intenção!


Lying is universal - we all do it; we all must do it.

Mark Twain

Se lhe perguntarem se alguma vez mentiu a alguém e responder que nunca o fez, acredite que nesse mesmo momento está a fazê-lo! Surpreendido?

Ao que parece, a mentira faz parte do “processo de engano ou envio de informação errada” ao Outro, que por sua vez é uma das muitas estratégias de comunicação da natureza e entre seres vivos em muitas espécies. Nós não somos exceção.

 A natureza sempre fervilhou de "enganos" entre predadores e presas e essa tem sido também uma das formas de garantir a sobrevivência e reprodução de ambos, razão pela qual este comportamento terá sido selecionado ao longo do tempo e ainda se mantém no repertório de comportamentos de muitas espécies, incluindo a nossa.

Esta pequena reflexão não trata da apologia da mentira, obviamente, mas sim da constatação e análise de como a mesma integra o processo evolutivo das espécies por meio de seleção natural e por isso tem funcionado como um mecanismo adaptativo, por muito que isso nos “choque”.

Podemos analisar cientificamente a “mentira” ou o “engano” do ponto de vista evolucionista questionando-o de quatro formas fundamentais:

1) Qual a é sua função? 2) Qual a origem e quais as causas (história)? 3) Qual o mecanismo (como e quando acontece)? e, 4) Como se desenvolveu?

Entre os seres que sobreviveram no longo processo de seleção natural estão aqueles que por terem mentido possuem as capacidades ou características que permitiram enganar os predadores que podiam prejudicá-los. Do mesmo modo que aqueles que tiveram e têm as capacidades ou as características que lhes permitiram e permitem enganar as vítimas, disso beneficiaram.

É então altura de perguntar: por que razão foi a capacidade de "enganar" selecionada pela evolução como estratégia de comunicação possível? A resposta, provavelmente, tem a ver com o seguinte: os que não possuíssem essas capacidades tinha menos possibilidades de sobreviver, quer porque não conseguiam alimento, quer porque se tornavam o alimento de outros. Neste sentido, é caso para dizer que a Evolução produziu os “melhores mentirosos”.

Predadores e vítimas têm assim aprendido a mentir e a enganar o outro através do desenvolvimento de mecanismos e recursos vários que ajudaram a esconder as características que são suscetíveis de dizer a verdade sobre si mesmos ou a denunciar a sua presença, tal como fingir características que não têm, razão pela qual esta evolução ocorreu tanto entre predadores como entre as suas vítimas.

Em várias espécies, aqueles que se conseguem misturar e confundir com o ambiente sobrevivem mais do que aqueles que se destacam nele. Mentir, enganar, enviar informação errada ou omiti-la, tanto ajudou a obter comida como a evitar ser comido. E já agora lembremo-nos que os predadores também podem ser as vítimas de outros predadores de alguma forma "melhores mentirosos", tal como as presas também podem ser os predadores de outras espécies com menor capacidades para enganar ou mentir de modo a protegerem-se.

Tudo somado, verifica-se que cada um dos elementos na relação pode mentir de formas diferentes desde que resultem em mais possibilidades de sobrevivência e reprodução.

Gostaria agora de destacar a questão da intencionalidade. Parece-me que no contexto evolutivo, os outros seres vivos que mentem não pretendem mentir, enganar ou iludir propriamente.

Na verdade, podem nem sequer pretender sobreviver única e especificamente através do engano. Simplesmente fazem-no. Assim, e isso é surpreendente de algum modo, o processo evolutivo como que “purifica” a mentira do seu sentido pejorativo nas outras espécies, isto porque, a razão pela qual os seres vivos comunicam de forma enganosa não tem a ver com a sua intenção ou com uma opção consciente, mas sim com as suas capacidades inatas para garantir a sua sobrevivência visando a reprodução dos seus genes.

Em resumo, esta perspetiva simplesmente postula que a evolução é desprovida de quaisquer intenções: ela é simplesmente cega!

É comum usarmos a palavra "mentira" para denotar uma ação intencional destinada a enganar os outros. É por isso que «mentir» carrega um sentido fortemente pejorativo. A mentira é sinónimo de engano, logro, dupla face, ação desonesta, falta de integridade, inconsistência, etc., etc... A palavra mentira carrega com ela um julgamento social de um comportamento que é considerado antissocial.

Entre nós, a mentira provoca não apenas um impacto sobre os outros, como envolve também um determinado grau de intenção, enquanto o comportamento involuntário nas outras espécies não carrega com ele esse mesmo grau de desaprovação ou julgamento social.

Qual é então a natureza do engano? Ao que parece, e em sentido lato, "enganar" é o resultado da evolução e de um comportamento subconsciente ao invés de um comportamento intencional. Mesmo entre nós, e em certas situações, mentir poderá ser a única forma de sobreviver. Por exemplo, fingir-se de morto pode evitar ser morto (como já aconteceu e ainda acontece).

Portanto, podemos julgar socialmente a mentira como válida ou incorreta, em abstrato, mas o comportamento do engano, em si mesmo, é imutável.

Verificamos que enganar os outros tem sido uma das formas e estratégias para garantir e assegurar o sucesso das espécies. Daqui resulta a sobrevivência e a inevitável proliferação de seres "enganadores". A conclusão é que ao enganar os outros, tanto os predadores como as suas vítimas podem multiplicar-se.

Podemos dizer que a Evolução o que tem feito é aguçar e refinar a capacidade de mentir se ambos – predadores e presas - se multiplicarem cada vez mais, alcançando um equilíbrio e permitindo que os dois sobrevivam. Enquanto o equilíbrio entre predadores e vítimas permanecer o mesmo, os mentirosos em cada grupo tendem a ser os vencedores pela evolução.

Note que no nosso caso isto é um pouco mais complexo pois na nossa espécie a esmagadora maioria dos seres humanos não vive sozinho e a sua sobrevivência depende do apoio de outros. De resto e na natureza, é comum em muitas espécies que a sobrevivência dependa não só do apoio da própria, mas do apoio de outras espécies.

Por fim, lembremo-nos que mentir é sempre relacional. A mentira é dirigida a alguém ou algo que possa reagir a ela. Uma mentira bem-sucedida depende da outra parte a quem ela é endereçada. Se a outra parte estiver consciente da verdade, não será facilmente enganada e a mentira embora possa continuar a ser uma mentira, já não é eficaz no seu resultado.

No nosso caso, inclusive, a mentira assume contornos altamente complexos, como seja mentir a si próprio, como se os seres humanos não fossem apenas um ser, mas dois, no sentido em que possuem duas entidades: o consciente e o inconsciente.

Os indivíduos podem mentir a si próprios (e de facto fazem-no diariamente), porque quanto mais um indivíduo conseguir mentir a si próprio, removendo do consciente para o inconsciente aquilo sobre o que quer mentir, mais possibilidades tem de conseguir enganar os outros, pois não será tão facilmente traído por micro expressões ou qualquer forma de linguagem não verbal. Além disso, mentir a si próprio é uma das formas utilizadas pelos indivíduos para aceitarem algo ou acreditarem em alguém que de outra forma não o fariam.

Quando aplicado a nós, seres humanos, a teoria evolutiva parece não só mais complicada como mais atenuada. Não sabemos se as plantas e outras coisas vivas pretendem, realmente, "mentir". No entanto, existem estudos que sugerem ser intencional mentir por parte dos seres humanos tal como entre outros primatas. Por exemplo, gorilas e chimpanzés foram já observados várias vezes a enganar os da sua própria espécie para conseguirem obter comida ou atrair companheiros.

O que parece acontecer é que podemos distinguir entre as mentiras dos seres vivos não humanos que resultam da evolução natural e as mentiras manipuladoras feitas pelos primatas e mamíferos de nível superior e juntá-las na sua fonte comum: a Evolução.

Há fortes evidências das tendências humanas inatas para manipular e enganar os outros. Nos bancos, por exemplo, vigaristas manipulam pequenos investidores para investir nos seus títulos comerciais, fingindo ser depósitos a prazo, ou vendem apólices de seguros que dizem cobrir riscos que afinal não cobrem, etc., etc.

Quem já não manipulou ou não mentiu a alguém?

Por exemplo, quando se faz um elogio a alguém mesmo não sentindo esse elogio, ou fazendo-o apenas por cortesia social, ou para evitar que esse alguém perca a face perante os outros?

Fingir, que é uma forma de enganar e mentir, é uma capacidade que os seres humanos possuem e que desenvolvem, aliás, desde uma idade muito