Ministros, ministras e a masculinidade precária!

Dizia assim o Expresso, em 2015, num trabalho, a meu ver, muito bom e muito interessante, sobre a diferença na presença de mulheres e homens nos governos portugueses nas últimas 4 décadas, neste caso entre 1974-2015.

“Quatro décadas de democracia: 31 mulheres ministras e 467 homens. Ao longo de 41 anos, 25 governos e 15 primeiros-ministros diferentes, foram nomeados para funções governativas 1609 homens e 127 mulheres: 92,7% com cromossoma Y e 7,3% com cromossoma X. E terminava acrescentando: É assim Portugal.”

A única questão, acrescento eu, é que contrariamente ao que se possa pensar, não é só em Portugal que é assim! E porquê?


Podemos dar várias respostas, claro, mas convido-o a olhar para este fenómeno de uma forma diferente das explicações mais imediatas. Vamos ao princípio. O psicólogo Jean Piaget (1896-1980) sugeriu que (...) "todos os fenómenos humanos são sociais nos seus fins, mentais nos seus meios e biológicos nas suas raízes."

Podemos aplicar esta ideia ao tentar perceber o porquê de uma tão grande disparidade de homens e mulheres, em geral e em praticamente todo o lado, na ocupação de cargos de poder e de maior influência. Podíamos, aliás, alargar essa análise do diferencial aos crimes, aos homicídios, à violência, à guerra, à liderança empresarial, etc. [1]

Podemos ainda não nos contentar com uma explicação aproximada, isto é, uma explicação que nos remete apenas para o mecanismo visível “da coisa”, como funciona, a sua dinâmica e como acontece. Para isso encontra já vários artigos de opinião, entre outras respostas.

Vamos aqui procurar uma resposta absoluta, isto é, uma resposta que nos remete para as fundações do fenómeno, tentando saber qual a função ou cadeia de acontecimentos que causaram a presença do mecanismo que gera “a coisa”, neste caso, de um mecanismo que gera um diferencial tão grande na distribuição de homens e mulheres, a favor dos primeiros, seja nas empresas, na gestão, nos negócios, na guerra, no crime e, no presente caso, nos cargos políticos de topo.[2]

Acredito ser provável que esta propensão dos homens para correrem para os cargos de liderança, estatuto, poder e maior visibilidade, seja nos negócios, na gestão e na política, tenha raízes evolutivas e naturais. É que uma das características das sociedades humanas, exibida por muito homens, tem a ver com o facto de a 'eles' não ser concedido o estatuto de «masculinidade» só por nascerem do sexo masculino. É como se ‘eles’ necessitem de «tornar-se». Já a ‘elas’ basta-lhe «ser» pois para a mulher os marcadores biológicos são suficientes para definir de forma mais permanente e estável a sua feminilidade junto dos outros.

Provavelmente é por isso que se ouve com muito mais frequência dirigido aos homens frases com conselhos do tipo, “comporta-te como um homem!” ou, “sê um homem!” ou ainda, “mostra que és homem!”. Como sabemos da experiência e da convivência comum, raramente se vê estas frases dirigidas a mulheres. Não precisam!

Talvez seja por isso que ao longo da nossa história evolutiva, as diferenças na biologia reprodutiva e nas estratégias a ela associadas por cada género, motivaram sempre muito mais os homens para comportamentos mais arriscados do que as mulheres. É como se a masculinidade fosse sempre algo precário, sujeito a prova, seguindo um modelo genérico designado HCME, isto é, os "homens competem, as mulheres escolhem"![3]

Assim, quaisquer ameaças à masculinidade são enfrentadas através de tentativas de reafirmação da masculinidade. Eis pois porque é que a guerra e o crime sempre foram, e continuam a ser assuntos predominantemente masculinos.[4]

A esfera política não foge ao padrão. Onde houver mais ganhos resultantes da exposição, do protagonismo, da fama e do prestígio, mesmo implicando mais riscos, lá estarão mais homens prontos a concorrer e a competir entre si por esses lugares. ‘Eles’ precisam mais do que ‘elas’.

Sendo este padrão um universal humano, significa que tem fundações biológicas, neste caso a reprodução e toda a complexidade do ‘mercado de acasalamento’ e das exibições que lhe estão associadas. E isto não se passa apenas em Portugal. É mais profundo e abrangente. Passa-se com a espécie.

Claro que podemos continuar tranquilamente a ignorar isto. Porém, as consequências de desconhecer, omitir ou não assumir este facto, são seguramente piores do que qualquer desconforto com o seu reconhecimento porque, entre outras coisas, esta é uma das razões que está na origem da guerra e da propensão dos homens para os cargos de poder, estatuto, decisão e visibilidade. E 'eles' não têm nenhum talento inato para a liderança. É um mito pensar-se isso.

Só tendo consciência disto é que podemos tentar alterar esta tendência. E lembremo-nos ainda de não cair na “falácia naturalista”: o facto de qualquer coisa ser “natural” não significa que seja boa e muito menos, moral! É que a evolução ocorre entretecendo-se com uma natureza que é, simplesmente, amoral e cega, por muito que nos choque!

Os fenómenos humanos, acrescento eu, podem agenciar-se de forma diversa e possuir diferentes ressonâncias e camuflagens culturais, mas isso não anula as suas fundações biológicas.

Finalmente: porque é que acho importante esta ideia?

Porque, como dizia Anton Chekhov, "o homem ficará melhor quando lhe mostrarmos como ele é."

E acho que ele não podia ser mais eloquente!

Notas

[1] Grosso modo, em todas estas “coisas” o ratio é 90/10, ou mais rigorosamente, mais de 90% de homens e menos de 10% de mulheres.

[2] Algo que já abordei noutros locais, como, por exemplo no livro Bioliderança, 2018, Edições Sílabo

[3] Para quem queira saber mais sobre a ‘teoria da masculinidade precária’ ver Bosson, J.& Vandello, J. (2011). Precarious Manhood and Its Links to Action and Aggression in Current Directions in Psychological Science, April 2011, vol. 20 no. 2 82-86. Sage Journals. doi: 10.1177/0963721411402669

[4] E não só. Como já referi noutros trabalhos, é por isso também que os homens arriscam mais, morrem mais cedo que as mulheres, escrevem mais livros e constantemente procuram oportunidades para exibir as sua capacidades, qualidades e recursos.