O Medo!

Será que podemos cheirar o medo?

A resposta curta e resolutiva é: sim!, podemos. Quer saber porquê?

O medo, por definição, é uma sensação ou emoção causada por qualquer perigo ou ameaça percebida, seja real ou potencial e produz um estado de alerta com consequências fisiológicas no nosso corpo e na nossa mente. Pode resultar de ameaças presentes ou da antecipação ou expectativa de ameaças futuras e produz em nós estados de ansiedade ou inquietação.

Sabemos também que o medo pode ser inato ou aprendido e desde sempre nos acompanhou de forma mais ampla e profunda através do sentimento de incerteza face ao futuro e ao desconhecido porque a nossa espécie só tem a certeza de uma coisa: a morte.

Contudo, e até há pouco tempo, não era claro se a capacidade de “detetar” o medo era algo que se confinava ao mundo dos animais em que o predador conseguia detetar o medo na presa e se essa capacidade, em nós, era algo que teríamos perdido durante a nossa longa caminhada evolutiva que nos afastou cada vez mais da natureza.

No entanto, a investigação científica (2009[1]) encontrou evidências que sugerem que o medo realmente pode ser detetado, ou melhor, “cheirado” nos outros. E porquê? Porque quando o sentimos, sem nos apercebermos exalamos feromonas que o sinalizam. E porque é que o fazemos? Porque parece que esta é uma forma de lançar pistas químicas que são transmitidas pelo ar e se destinam a alertar os outros membros da nossa espécie sobre os perigos ou ameaças que existem nas proximidades.

É comum, de resto, vermos o medo descrito de forma metafórica como algo que se “espalha como um vírus” e que as multidões podem ser facilmente “infetadas” pelo medo. E de facto, o que a investigação nos diz é que as pessoas podem realmente ser “contaminadas” pelo medo e isto, afinal, não é uma simples metáfora como alguns podem julgar.

Numa pesquisa muito original foi pedido a um grupo de mais de cem pessoas[2] que se lançassem em saltos livres de para-quedas sendo depois recolhidas amostras das suas camisolas com o suor libertado e, entre estas, em especial das pessoas neste grupo que pela primeira vez tiveram esta experiência. Estes indivíduos foram também utilizados posteriormente como grupo de controlo sendo também colocados a correr em passadeiras de ginásio num ambiente calmo, fechado e controlado.

Seguidamente as camisolas com as amostras de “suor do medo" (grupo que fez pela primeira vez o salto livre) foram apresentadas a um outro grupo de pessoas utilizando ao mesmo tempo exames com ressonâncias magnéticas funcionais (fMRI) de modo a ver como as pessoas reagiam às feromonas em tempo real.

As camisolas com o “suor do medo” desencadearam atividade nas amígdalas[3] dos indivíduos, mas as camisolas com o “suor da corrida” recolhido nas passadeiras de ginásio em ambiente calmo e fechado, não.

Numa segunda fase da experiência os investigadores expuseram os sujeitos do teste tanto ao “suor do medo” como ao “suor da corrida” enquanto lhes mostravam imagens de rostos humanos transmitindo um espectro de expressões faciais que ia desde faces neutras até faces que exprimiam raiva clara.

Quando lhes foi pedido que classificassem cada imagem como neutra ou ameaçadora, ao cheirarem o ”suor da corrida”, os sujeitos classificaram apenas os rostos visivelmente zangados como potenciais ameaças. Porém, quando cheiravam o “suor do medo”, eram significativamente mais propensos a classificar toda a gama de rostos como ameaçadores quer expressassem raiva evidente ou não, o que sugere a ideia de que o suor produzido pelo medo terá desencadeado um estado de alerta nos indivíduos.

Portanto, o que esta investigação nos sugere é que podemos, de facto, "cheirar" o medo uns nos outros e este sistema de alerta químico pode preparar o nosso cérebro para reagir às ameaças que chegam.

Talvez isto nos ajude a entender melhor porque razão instintivamente entramos em modo de "alerta" em certas situações em que sentimos a “tensão no ar” ou porque é que a situação que vivemos hoje com a ameaça global e invisível do COVID-19 nos faz sentir “em guarda” ou, ainda, porque é que basta ouvir alguém espirrar ou tossir para que isso nos desperte a atenção ou faça aumentar a tensão e, pela mesma razão, porque é que quando percebemos que as prateleiras do supermercado onde habitualmente está o papel higiénico estão agora... vazias.

As nossas feromonas de alarme são um” lembrete evolutivo” vital que nos trouxe até aqui alertando-nos para os perigos e fazendo-nos aumentar a vigilância.

É por isso que o medo está incorporado em nós e em si mesmo é e tem sido sempre útil enquanto mecanismo de adaptação ou sobrevivência não só para nós, individualmente, como para as nossas comunidades também.

Esta é uma das razões pelas quais os jornais sensacionalistas baseiam os seus títulos e manchetes em notícias relativas a perigos vários porque o “perigo” capta sempre a nossa atenção.

Percebe-se também a imagem do medo “contagioso” e “infecioso” como negativa, porém, na verdade, o medo faz parte de um sistema de alarme que quando bem calibrado pode funcionar como um preventivo, um detetor de ameaças ou um estímulo para orientar a nossa atenção e o nosso comportamento individual ou coletivo.

O problema acontece e complica-se, e já é diferente, quando se perde o controlo do sistema de alarme e entramos em "modo de pânico" ou quando outros sem escrúpulos ou sem bússola moral se aproveitam ou tentam aproveitar dele para nos explorar ou impor qualquer coisa.

Mas neste caso já estamos a falar de um medo profundo transformado por vezes em pânico e esse é realmente perigoso porque ao contrário de nos proteger pode vulnerabilizar-nos ou permitir que alguém nos ameace ou ataque com ele.

Seja em que situação for, e por muito cansativo que seja, só nos resta continuar em estado de alerta, esperando o melhor e estando preparados para o pior!

Sejamos fortes! Afinal, qual é a alternativa?


Notas

[1] Mujica-Parodi L., Strey H., Blaise, Savoy, R., Cox, D., Botanov, Y., Tolkunov, D., Rubin, J. (2009). Chemosensory Cues to Conspecific Emotional Stress Activate Amygdala in Humans. Pub.: July 29, 2009https://doi.org/10.1371/journal.pone.0006415.

[2] Mais concretamente 144 pessoas divididas posteriormente em 2 grupos de modo a que um funcionasse como grupo de controlo.

[3] A nossa pequena estrutura cerebral implicada na manifestação das reações emocionais e na aprendizagem de conteúdo emocionalmente relevante.