O (outro) vírus do negativismo!

O nosso pessimismo e apetite voraz por más notícias não tem limites.

O que atualmente se passa com a torrente constante e exaustiva de notícias sobre o Corona vírus e as suas vítimas mortais são um bom exemplo. Muito, mas muito raramente, são reportadas “quem são” as pessoas que têm morrido, nomeadamente em termos da sua idade e da sua eventual maior vulnerabilidade por serem pessoas já portadoras de outras doenças crónicas e debilitantes também. Nem sequer referem a maior ou menor probabilidade de fatalidade tendo só em conta a variável "idade" de quem possa ficar infetado (Vd. gráfico abaixo).


Não parece haver nenhum interesse por notícias pedagógicas, esclarecedoras, rigorosas e realmente responsáveis que não padeçam do preconceito negativista que se resume nisto: se não for mau e não assustar não interessa. E quanto pior e mais assustador, “melhor”! Por isso só referirem o número de mortos o que nada tranquiliza a população.

Se reparar com atenção, a esmagadora maioria das notícias dadas e que têm impacto são apenas a do número de mortos (quantos são) e não "quem são". Por exemplo, será que o número de mortos reflete indiscriminadamente quem fica hospedeiro do vírus? Os indivíduos que estão a morrer pertencem a qualquer grupo etário? Mata crianças ou pessoas até aos 70 anos da mesma forma que mata os que têm 80 ou mais?

Já nem me refiro à quase total ausência de notícias daqueles que sobrevivem ao vírus e se encontram curados, por comparação com aqueles que morrem mas que devem ser equacionados estatisticamente no quadro total de infetados (a chamada taxa de letalidade). Dizer que morreram mais 30 pessoas atrai muito mais a atenção do que dizer que a letalidade do vírus é, na verdade e até agora, relativamente baixa, sobretudo quando comparada com outras situações epidémicas que ocorreram num passado recente (como o SARS).

As razões para tudo isto parece terem a ver com a nossa sobrevivência e o nosso cérebro formatado na savana durante centenas de milhares de anos para identificar, primeiro, quaisquer situações de perigo que possam constituir uma ameaça à nossa sobrevivência. Ainda hoje aquilo que prende mais facilmente a nossa atenção continua a ser o perigo e a novidade, até porque esta pode significar novo perigo também!

Mas as "más notícias" têm ainda uma outra particularidade que as torna tão atrativas: elas são normalmente súbitas e irrompem com estrondo enquanto as notícias acerca de quaisquer factos positivos são muito lentas, porque graduais e cumulativas, logo tornam-se rapidamente menos interessantes para a nossa mente sempre ávida de saber o que está mal ou nos pode ameaçar. Não admira que tudo o que possa representar perigo, susto ou ameaça, colha prioritariamente a nossa atenção. E por sua vez a nossa psicologia evolutiva diz-nos que se algo capta a nossa atenção, então é porque deve ser importante.

O grande problema, a meu ver, é que a persistência desta visão do mundo acaba por ser profundamente distorcida e distorcer a nossa mente também além de ser brutalmente stressante. Já o referi aqui que em 2016 numa pesquisa realizada junto de uma amostra considerável de 20.000 pessoas nalguns dos países mais desenvolvidos e ricos do mundo, perguntou-se ,” (…) "Tudo considerado, considera que o mundo está:

 a) A ficar melhor, b) A ficar pior, c) Na mesma?

Os resultados são verdadeiramente surpreendentes, já que entre os respondentes apenas 10 % na Suécia, 6% nos EUA, 4% na Alemanha e 3% em França, consideraram que as coisas no mundo estavam a melhorar.

E noutra investigação em 24 países fez-se a seguinte pergunta, junto de quase 27.000 respondentes:

"(...) Acha que nos últimos 20 anos a proporção da população mundial que vive na extrema pobreza:

 a) Aumentou 50%; b) Aumentou 25%

c) Permaneceu na mesma

d) Diminuiu 25% ; e) Diminuiu 50%?;

 Por incrível que possa parecer, só 1% dos respondentes acertaram na resposta correta e que é a e) “ Diminuiu 50%.”!

A nossa tendência para procurar notícias e informação negativa ou sobre perigos e ameaças é uma das características humanas e que é bem explorada pelos "arautosda desgraça" em geral e pelos meios de comunicação social em particular que de resto vivem disto (já reparou no tipo de música de fundo que acompanha habitualmente a abertura das notícias nos noticiários televisivos?).

Esta é, acredito, uma das várias razões do nosso preconceito generalizado a favor da negatividade e do pessimismo que afeta o discurso público, político e dos cidadãos em geral.

É sabido que todos os seres humanos desenvolveram uma aversão à perda como forma de garantir a sua sobrevivência. É isto, de resto, que nos faz sofrer com mais intensidade qualquer perda do que vivenciar com a mesma proporcionalidade e intensidade qualquer ganho. Durante 99% da nossa existência, qualquer perda podia significar a morte, enquanto qualquer ganho não acrescentava muito mais de extraordinário ao que já havia.

A “falácia da época dourada” que os sociólogos referem habitualmente faz com que tenhamos uma tendência para nos lembrarmos com mais facilidade e mais frequência das coisas boas ocorridas no passado, esquecendo as coisas negativas que aconteceram. Em consequência disto o nosso presente pode parecer pior do que realmente é. Além disso, algumas pessoas consideram-se mais bem informadas, conhecedoras e até mais “espertas” do que os outros acerca daquilo que se passa no mundo e na nossa vida se forem mais pessimistas em vez de otimistas.

É como se o pessimismo crónico conferisse uma espécie de aura de credibilidade, autoridade e até de inteligência superior em relação aos outros, por parte de quem verbaliza e expõe qualquer coisa que seja negativa ou pessimista, mesmo que não passe no crivo e na análise dos factos.

É caso para dizer que pior do que os factos negativos e os perigos que nos espreitam é a ilusão do nosso conhecimento ou ignorância desses mesmos factos.

Claro que é fundamental prestar atenção ao que se passa. Mas é tão importante estarmos atentos às informações negativas e aos perigos que irrompem de onde menos se espera como é importante estarmos conscientes dos factos positivos que se acumulam gradualmente e fazem com que a “época dourada” afinal, seja hoje.

 E você, acha que é hóspede do vírus do negativismo?

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