O que são, afinal, estereótipos?

Ouvimos frequentemente o termo “estereótipo”, mas será que o ouvimos sendo empregue de forma correta?

O facto de ouvirmos muitas vezes uma expressão não significa que ela esteja correta. Na verdade, e apesar da “má fama”, muitas pessoas não sabem exatamente o que é um estereótipo, ou emprega a expressão e o conceito de forma incorreta, porque pretende dizer preconceito ou “ideia feita” quando não é a mesma coisa. É provável que isto se deva a uma interpretação errada do termo «estereótipo», considerando-o, implicitamente, como algo necessariamente negativo.

Eu sei que os estereótipos têm uma reputação e fama negativas, mas acredito que isso se deve, sobretudo, ao facto de a maioria das pessoas, naturalmente, não saber nem pensar um pouco mais, em termos científicos, sobre o que é que são, realmente, os «estereótipos».

Então, afinal o que são estereótipos?

Por muito estranho que possa parecer, um estereótipo não passa de uma generalização empírica. E esta generalização é uma construção feita pela ciência a partir de observações, da deteção de padrões, relações e outras associações que são encontradas na investigação e que permitem que se formulem e testem hipóteses, as quais se aceitam ou se rejeitam. Apenas isso!

Isto significa que em si mesmo os estereótipos não são «bons» nem «maus», «morais» ou «imorais», «desejados» ou «indesejados», «corretos» ou incorretos», etc. Apenas são estereótipos e, enquanto tal, não nos indicam o que devemos, ou não, fazer.

Portanto, não devemos (nem podemos), em bom rigor, tentar inferir como tratar as pessoas ou grupos a partir de observações e generalizações empíricas sobre elas.

O objetivo dos estereótipos é apenas um: informar-nos sobre o que determinadas «categorias» de pessoas tendem a ser, a pensar, a fazer, a dizer, ou aquilo que as caracteriza em geral. Mas não nos dizem rigorosamente nada sobre como devemos tratá-las. Repito: nada!

Uma vez que se trata apenas de generalizações empíricas, suportadas pela observação e experiência de milhares ou milhões de indivíduos, é natural que a maioria dos estereótipos sejam, em geral, verdade. Caso contrário, não seriam estereótipos.

E porquê? Porque se os estereótipos não forem verdadeiros, naturalmente que não sobrevivem o tempo necessário para sê-lo. Por outras palavras, aquilo que pretendo dizer é que uma parte muito significativa dos estereótipos trata apenas de generalizações empíricas com base estatística e, portanto, em média, tendem a ser verdade. Gostemos ou não! Já quanto ao que pensamos sobre isso, é outro assunto e deve ser outro debate.

Deixe-me dar-lhe alguns exemplos: é tão verdade estatisticamente que em geral, e em média, os homens são mais altos do que as mulheres e pesam mais do que elas também. Em geral, e em média, os homens ganham mais dinheiro do que as mulheres, tal como os holandeses são mais altos do que os vietnamitas ou ainda que, em cada 100 indivíduos muito bem-sucedidos nos negócios, 95% possui formação universitária superior.

Claro que há sempre exceções e casos particulares. O problema é que parece haver uma certa tendência, completamente errada, em focar uma situação de exceção, relevante ou não, para a transformar numa regra ou induzir a conclusão, julgando o todo a partir de uma minúscula parte. Parece mesmo que certas pessoas gostam de extrapolar conclusões a partir das exceções, invertendo as regras a partir delas.

Mas os casos excecionais não anulam a tendência central, e é nessa tendência central que se funda qualquer estereótipo.

Todos sabemos que há mulheres que ganham mais dinheiro do que muitos homens, tal como sabemos que há mulheres mais pesadas e mais altas que muitos homens e vietnamitas mais altos do que holandeses, do mesmo modo que há indivíduos muito bem-sucedidos nos negócios que não têm formação universitária. Mas será que isso invalida a tendência estatística descrita pelo estereótipo?

Repito: os estereótipos não são mais do que generalizações empíricas com base estatística. Por isso, não são, nem se referem, a casos particulares nem a exceções. Senão, não o seriam.

O perigo reside, justamente, em confundir e aplicar essas generalizações empíricas a casos individuais, que podem ou não ser casos puramente excecionais e, como tal, irrelevantes, para a tendência central.

As exceções apenas parecem ter importância, porque quando são evocadas passam a ser objeto da «ilusão do foco», ou seja, ganham uma amplificação e uma aparente importância que resulta apenas do facto de estarem a ser referidas. Mas não invalidam as generalizações.

Ora e quanto ao preconceito confundido como estereótipo ou ao estereótipo utilizado como preconceito? Ainda pior. Um preconceito é uma coisa bem diferente de um estereótipo!

Um preconceito, ao contrário de um estereótipo, é um juízo pré-concebido que se exprime, normalmente, através de uma atitude negativa e discriminatória, seja em relação a pessoas, grupos, crenças, sentimentos ou tendências de comportamentos, individuais ou coletivos. Muitas vezes é uma distorção abusiva e até maldosa de alguns estereótipos.

Mas um estereótipo não é, nem tem de ser, um preconceito.

E lembre-se. O facto de se repetir muitas vezes uma coisa errada, não a torna certa. Mesmo que o seja feito com muita veemência.

A força de uma crença só atesta a sua força. Não a veracidade daquilo que se diz!

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