Populismo. Nós e eles!


“Todo o poder vem do povo. Mas para onde é que vai?” B. Brecht Muito se tem ouvido, como nunca, falar de populismo. E há-os para todos os gostos. De direita, esquerda, nacionalistas, socialistas, conservadores, progressistas, ou, como dizem os ingleses, you name it! Existem conforme o que melhor se adapta a um dado ambiente, qual vírus que necessita de um hospedeiro para se alimentar e sobreviver. Mas o que é que têm em comum os populismos políticos? Uma profunda categorização “nós” versus “eles” em que “nós” somos os bons e as vítimas “deles” que são os “outros”, os maus, a elite corrupta. Independentemente dos estilos que os líderes populistas assumam, têm pontos em comum: são seguidos pelos descontentes por causa do seu discurso inflamado e simplista contra as “elites” (eles) e por isso os líderes populistas “não podem” ser dessa mesma elite. Tem de ser alguém que vem “de fora”. Possuem um discurso simplista que propõe medidas também simplistas para problemas complexos e esconde garras ditatoriais da “maioria” que somos “nós” e que não deve ser contrariada pela minoria, que são eles, os outros. Não deixa de ser uma ironia que sejam as próprias democracias a produzirem os seus próprios “populismos”, ou dito de outra forma, é a democracia tolerante que permite a exaltação da intolerância que curiosamente defende que só uma parte do povo (nós) é realmente o povo. Não é fácil realmente definir o populismo nem muitas vezes separá-lo da demagogia (sua irmã mais velha). Contudo, encontramos algumas características comuns aos vários tipos de populismos e um padrão de terreno recorrente. A cólera, o ressentimento, a frustração, a raiva, a propensão para o autoritarismo e as dificuldades económicas e sociais são características que ajudam a desenvolver o populismo e os líderes populistas e o tornam atrativo para muitas pessoas e não apenas pessoas oriundas das chamadas “classes mais baixas”. Nas democracias representativas, sobretudo, onde se geram com mais recorrência os “movimentos” populistas, estas ideias pairam sempre como uma espécie de intimação que tem de ser assumida como real e não deve ser negada. Não devemos esquecer que o populismo possui a sua própria lógica interna e o contexto dá-lhe o sentido e as condições para que se mostre e concretize. Porém, não há populismo se não houver alguém que fale “em nome do povo” e funcione como um “amplificador” das suas desilusões, amarguras, ressentimentos e frustrações. Dependendo dos contexto e das circunstâncias o populismo pode emergir mais facilmente quando o seu discurso, assente numa ideia moralista da política, é pregado por líderes com ansiedade de estatuto e que têm um impacto emocional no povo, conseguindo destacar-se, normalmente não tanto pelo que fizeram (ou fazem) mas pelo que são e como se apresentam ao povo, conquistando um ascendente não apenas resultante do seu discurso simples e inflamado mas também de uma autoconfiança inabalável (muitas vezes narcísica). Acredito que entre nós, como em qualquer democracia pluralista e representativa, existe sempre a semente de um qualquer movimento populista, porém, a inexistência de líderes com características carismáticas que consigam agregar o descontentamento não têm aparecido. Talvez seja essa uma das principais razões (seguramente não a única) pela qual este país tem permanecido relativamente à margem de moralismos populistas inflamados que aqui e ali têm grassado na Europa e não só. Mas temos de estar atentos. O rastilho está lá, o que falta é algo ou alguém que o acenda. Afinal, como referia o sociólogo Ralf Dahrendorf,” o populismo é simples, a democracia é complexa”.

Referências (para quem queira saber mais) Dahrendorf, R. (1967). Society and Democracy in Germany. New York: W. W. Norton & Company Dahrendorf, R. (1988). "The Modern Social Conflict". Los Angeles: University of California Press Freire, A. (2014). Austeridade, Democracia e Autoritarismo. Lisboa: Nova Vega Pinto, J. (2017) Populismo e Democracia: Dinâmicas Populistas na União Europeia. Lisboa: Edições Sílabo Mudde, C. &; Kaltwasser, C. (2017). Populism: A Very Short Introduction. Oxford: University Press. Finchelstein, F. (2016). From Fascism to Populism in History. Oakland: University of California Press. Muller, W. (2017). What Is Populism? Philadelphia: University of Pennsylvania Press Judis, J. (2016). The Populist Explosion: How the Great Recession Transformed American and European Politics

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