Por que razão acreditamos?

Este artigo faz parte do meu próximo livro que sairá, em princípio, em 2019, com o título Da Natureza das Causas – Evolução, Comportamento Humano e Biopolítica.

Se nos interessamos pelo comportamento humano, individual ou coletivo, e em qualquer área da vida social e organizacional, a melhor forma de o tentar compreender, explicar e, de algum modo prever, é pensar nos indivíduos ou grupos enquanto sistemas adaptativos orientados para resolverem problemas de domínio específico.

Neste sentido e considerando o paradigma evolutivo, podemos pensar e afirmar que aquilo que move as pessoas, grupos e organizações são tanto a defesa dos seus interesse, como as suas crenças, as quais também sustentam e orientam a sua procura.

Do mesmo modo que defendo que para perceber o comportamento humano é preciso perceber as crenças que o orientam, para compreender estas é preciso compreender o modo de funcionamento do nosso cérebro, que aqui é tratado como e enquanto um computador orgânico produto de um longo processo que se chama Evolução por meio de seleção natural.


1-O que são crenças?

As crenças são estados mentais resultantes de processos cognitivos. Estes estados funcionam como redutores da incerteza e permitem economizar energia, seja na modelagem, na avaliação ou na previsão do ambiente. É através daquilo em que acreditamos que o nosso cérebro dá sentido ao mundo, reduzindo a incerteza e "eliminando" as dúvidas.


2-Porque é que precisamos de acreditar em algo?

Por várias razões. Desde logo porque isso nos ajuda a interagir e a navegar socialmente no ambiente no qual vivemos e do qual dependemos. Depois, porque com as crenças, e através delas, as pessoas formam representações mentais e expectativas em relação ao ambiente que as rodeia e como é suposto se comportarem.

Portanto, as crenças funcionam (também) como uma espécie de «pré-modelo» menos dispendioso para encontrar ou formar padrões que nos dizem como as coisas devem estar relacionadas entre si. De resto, sabemos que os indivíduos conseguem acreditar e manter uma crença ou fé indestrutível sobre qualquer questão (independentemente do quão absurda seja), quando a mesma é defendida e sustentada por uma comunidade ou grupo de outros indivíduos que pensam do mesmo modo e acreditam na mesma proposição, em especial quando um padrão é detectado (ou assim se julga).


3-Como evoluíram as crenças e para que servem?

As crenças evoluíram como economizadores de energia, porque o nosso cérebro é um órgão energético altamente dispendioso. Embora represente apenas 2% da massa corporal, consome cerca de 20% de todas as energias. Como tal, evolutivamente, fez sentido que tenha desenvolvido mecanismos eficientes para a conservação da energia.[1]

Além disso, e como computador orgânico, desempenha funções de previsão e necessita de conseguir formas menos dispendiosas para o reconhecimento de padrões, enquanto, simultaneamente, processa através de todos os outros órgãos dos sentidos, quantidades vastíssimas de informação que provêm do ambiente.[2]

É assim que as formas menos consumidoras de energia se transformam em “atalhos cognitivos” que permitem ao nosso cérebro filtrar informações complexas sendo capaz de avaliar e categorizar rapidamente os dados, transformando-os em informações que organizadas geram conhecimento o qual lhe permite “saltar” para conclusões e tomar decisões.[3]

Contudo, se é verdade que estas sínteses foram e são-nos úteis, também é verdade que esta propensão dos seres humanos para encontrar padrões, com significado ou não, e que é o que está na base da formação das crenças, pode originar dois tipos de erros. O erro de tipo 1, chamado «falso-positivo», que acontece quando julgamos e acreditamos que um padrão é real e significativo, e não o é; e o erro tipo 2, chamado «falso-negativo», que acontece quando não reconhecemos ou acreditamos num padrão, mas ele na verdade existe. Note-se que esta capacidade não só nos concedeu vantagens evolutivas como nos deu (e continua a dar) a sensação de controlo da realidade.

Por tudo isto, as nossas crenças buscam uma qualquer forma de conformidade. São formas eficientes e rápidas de responder e aprender e têm sido cruciais na nossa sobrevivência enquanto espécie.


4-Qual a diferença entre fé e crença?

Embora ambas sejam estados mentais assentes em convicções que se formam, não devem ser confundidas, porque a fé é uma convicção profunda que dispensa as provas ou evidências. Por isso, enquanto a ciência só acredita naquilo que vê, o nosso cérebro é capaz de acreditar sem ver; somos capazes de acreditar com ou sem evidências. Esta é, aliás, uma das razões pela qual somos propensos a confiar e ao erro. 

Claro que há crenças que podem ser identificadas como incorrectas e posteriormente corrigidas ou mesmo eliminadas e substituídas. Então, se o sabemos, podemos perguntar: porque é que ainda assim as mantemos? Porque se trata de um compromisso evolutivo entre eficiência e precisão. E esta é a chave!

Na sua necessidade de economizar e ser eficiente em termos de consumo de energia, a tendência padrão do cérebro (ou o seu “modo por defeito”) é encaixar novas informações no quadro daquelas já existentes para compreender o mundo, em vez de ter que reconstruir repetidamente essa mesma estrutura a partir do zero. Eis porque, para o nosso cérebro, o modo base de funcionamento se orienta pelo “só há aquilo que vês”, ou, como dizia Houdini, “o que os olhos veem e os ouvidos ouvem, a mente acredita”.

Mas atenção: no caso da fé, esta baseia-se apenas na convicção, ou seja, é uma crença sem evidências, enquanto a ciência se baseia apenas em evidências que produzem e sustentam uma crença. A ciência é um meio para encontrar explicações naturais para todos os fenómenos, incluindo para as nossas crenças, mesmo, ou sobretudo, quando estão erradas ou profundamente distorcidas.


5-O que procuramos com as crenças e com o ato de acreditar?

Provavelmente procuramos a homeostase (Damásio, 2018) porque, tudo o indica, os sistemas nervosos primitivos evoluíram, em parte, para servir a função da homeostase[4] a qual se estrutura em torno de uma resistência natural à mudança, "seguindo o mesmo princípio de um termóstato".[5]

Não será surpresa, portanto, que esta função homeostática que definiu os nossos cérebros primitivos no ambiente ancestral tenha sido preservada e se constitua como um princípio organizador na evolução para cérebros mais complexos. Tal como as funções cerebrais primárias, as crenças, enquanto executores adaptativos, estão ao serviço da manutenção da homeostase num ambiente adaptativo em constante mutação.

Além disso, e tal como a investigação no domínio da psicologia evolucionista mais recente sugere, as consequências da exposição repetida a rotinas positivas beneficiam o organismo nas suas relações com o ambiente, permitindo-lhe distinguir objetos e habitats que são seguros daqueles que não o são, e constituem, por isso, a base mais primitiva das ligações sociais. Alguma investigação (Zajonc, 2007) sugere mesmo que é este fenómeno que pode estar na base da organização e da coesão social, constituindo a fonte básica da estabilidade psicológica e social dos seres humanos.


6-Qual a dimensão evolutiva das nossas crenças?

Como sabemos, o quadro geral das nossas crenças e opiniões é aprendido desde muito cedo na nossa vida, tanto com os pais, em geral, como com aqueles a quem reconhecemos "autoridade". Dito de forma mais abrangente, as crenças humanas são o produto cumulativo de milhares de anos da existência humana, [6] e para serem percebidas cabalmente teremos de recuar bastante e entender as suas origens evolutivas.

A crença parece ser uma propriedade do nosso cérebro que é composto por biliões de células nervosas cujo funcionamento depende dos sinais emitidos e recebidos entre si. E qual é a função principal do cérebro? Provavelmente é a de controlar os movimentos do corpo, razão pela qual esta ideia deve estar no centro de qualquer tentativa para entender as crenças. De resto, o movimento já estava presente nas nossas células ancestrais há cerca de 3 mil milhões de anos. Para acontecer, contudo, e no nosso caso, o movimento implica decisões e as decisões implicam acreditar. Hoje pode parecer-nos simples, mas a capacidade de movimentação representou para nós uma enorme vantagem adaptativa para os nossos ancestrais. Permitiu-lhes dispersar para novos sítios, encontrar mais e novos alimentos, mais e melhores abrigos e outros recursos e escapar de predadores. Sendo nós uma "espécie oportunista", ou seja, uma espécie sem estratégia de sobrevivência especializada, isso constituiu-se como um fator-chave para o nosso sucesso.


7-Porque é tão difícil mudar uma crença?

Essencialmente por duas razões principais. Primeiro, porque, na linha do anteriormente dito, o cérebro é um órgão conservador de energia, por isso naturalmente avesso à mudança. Segundo, porque as nossas crenças entretecem-se com a forma como nos definimos enquanto pessoas e seres sociais, culturais e tribais, ou seja, com a ideia que temos de nós próprios e a ideia que temos das nossas relações com os outros.[7]

Em geral, todos os seres humanos preferem sentir-se consistentes, e fazem-no alinhando o melhor que podem o seu comportamento com as crenças que o guiam. Por isso, tentamos racionalizar constantemente as nossas próprias ações e as nossas crenças de modo a preservar tanto uma autoimagem como um autoconceito que seja coerente.[8] Não deve ser surpresa, portanto, porque é que é tão difícil para nós alterar ou eliminar aquilo em que (já) acreditamos dado o investimento emocional já realizado.


Conclusão

No computo geral, olhando tanto para a nossa história como para o que se passa à nossa volta na atualidade, podemos dizer que, provavelmente, a nossa necessidade de acreditar não é, nem uma limitação nem uma possibilidade, mas sim parte integrante da nossa condição! Uma inevitabilidade que torna a crença o estado natural das coisas.

É verdade que quando acreditamos em algo no nosso quotidiano, talvez não pensemos muito nisso, e tomamos múltiplas decisões, das mais simples às mais difíceis, como seja confiar em pessoas, empresas, instituições, organizações, grupos, processos e sistemas. E talvez até o façamos inconscientemente porque, por trás das nossas decisões, toda a nossa história de vida e da nossa própria evolução nos preparou para esse momento.


Notas

[1] Talvez isto explique por que motivo tendemos a escolher o “caminho da menor resistência”.

[2] Portanto, procuramos constantemente indícios que revelem padrões, algo que no ambiente adaptativo ancestral terá fomentado determinado tipo de sensibilidades, capacidades e vantagens adaptativas.

[3] De facto, a nossa mente não se limita a coligir informação. Processa-a, elabora-a, e procura determinados tipos de associações. Tornámo-nos eficazes a identificar padrões em grupos de informação, e quando um padrão é reconhecido, isso permite a substituição do todo por uma rápida síntese.

[4] Ou seja, e por definição, um estado fisiológico dinâmico de equilíbrio ou estabilidade, um estado estável de condições internas.

[5] Tal como as “partes inferiores” dos nossos cérebros humanos procuram incessantemente manter a homeostase, seja da respiração, frequência cardíaca, pressão sanguínea, temperatura, etc.,também as crenças ajudam a conservar uma espécie de homeostase cognitiva , ou seja, uma abordagem estável e familiar para processar dados, transformá-los em informações e conhecimento sobre o nosso mundo e a partir daí tomar decisões.

[6] Em todas as culturas as crianças estão fortemente predispostas a acreditar nos seus pais, e, enquanto adultos, estamos inclinados a acreditar nas autoridades. Não nos deve surpreender, portanto, que nossos cérebros tenham evoluído para acreditar mais facilmente nas coisas que nos dizem do que a adotar, por princípio, uma postura cética ou crítica. Aliás, faz sentido evolutivo enquanto estratégia para a aprendizagem eficiente com os pais e enquanto espécie social e tribal, promovendo a coesão do grupo.

[7] É sabido que as crenças estão associadas a uma parte do nosso cérebro envolvida integralmente na autorepresentação, nomeadamente o córtex pré-frontal ventromedial. Para saber mais, ver: Harris, S., 2009). The neural correlates of religious and nonreligious belief. PLoS One, 4(10): p. e0007272; Harris, S., S.A. Sheth, and M.S. Cohen, Functional neuroimaging of belief, disbelief, and uncertainty. Ann Neurol, 2008. 63(2): p. 141-7. The ventromedial prefrontal cortex is also involved in emotional associations, reward, and goal-driven behavior.

[8] Convém destacar e relembrar que, muitas vezes, há um forte investimento pessoal dos indivíduos na formação das suas crenças e a sua própria vida é estruturada em torno e com base nelas. Alterar uma crença implica um custo que tem de ser processado pelo cérebro na sua computação habitual.


Principais referências

Berger P. & Luckman, T. (1981). The social construction of reality. London: Penguin Books.

Bering, J. (2010). The belief instinct. London: W.W. Norton & Company.

Churchland, P. (2011). Braintrust: what neuroscience tells us about morality? Oxford: Princeton University Press.

Damásio, A. (2018). A estranha ordem das coisas. Lisboa: Temas e Debates

Finuras, P. (2013). O Dilema da Confiança. Lisboa: Edições Sílabo

Finuras, P. (2015) Primatas Culturais – Evolução e Natureza Humana. Lisboa: Edições Sílabo

Holton, R. (1980). Deciding to trust, coming to believe. Australasian Journ. of Philosophy, 72(1), 63-76.