Porque é que o açúcar é doce? A origem do coletivismo cultural!

Embora as dimensões culturais «individualismo e coletivismo» sejam habitualmente abordadas nas várias ciências sociais como uma das características mais distintivas e marcantes das sociedades humanas, a sua origem nunca foi suficientemente esclarecida.

É como se constatássemos que o «açúcar é doce», sem questionar o porquê.

A tendência para uma sociedade humana, quando comparada com outra, ser mais ou menos «coletivista», talvez não seja apenas uma questão de «preferência coletiva». Todas as sociedades (e respetivas culturas nacionais) têm um «grau base de coletivismo» que pode ser ativado em diferentes situações (eis porque somos capazes de "odiar os outros"). Porém, e na linha da «hipótese do instinto social tribal», o «coletivismo» parece ser o modo por «defeito» de todas as culturas e traduz a natureza da nossa socialidade que terá a ver com o facto da nossa espécie ser profundamente «altricial».

Por outras palavras, a «predisposição coletivista de base» pode agenciar-se de modo hierárquico e ativar-se em níveis e contextos diferentes de atividade.

Em certas situações, o espírito coletivista (ou «mentalidade colmeia») pode ser ativado pela família, noutras, como nas sociedades modernas, pode ser ao nível da empresa, profissão, equipa de trabalho, clube desportivo, sindicato ou partido político, etc., e noutras ainda pode ser a própria Nação o grupo relevante ou de referência.

Alguns estudos longitudinais comparados sugerem que o rendimento e a «riqueza» em geral tendem a “empurrar” e a aumentar os valores individualistas numa sociedade (o que significa que «mais riqueza tende a gerar mais individualismo»). A ideia é a de que à medida que os indivíduos «enriquecem», vão conseguindo «cortar» os laços de dependência em relação aos grupos ou, pelo menos, diminuir a sua dependência.

Estudos de alguns importantes investigadores [1] lançaram uma nova luz sobre as possíveis origens desta dimensão cultural, sugerindo que as doenças infeciosas impuseram pressões seletivas no comportamento social das populações hospedeiras e são a "variável biológica" de origem do coletivismo.

Em síntese, os membros de uma comunidade compartilhavam a maior parte das bactérias e outros parasitas pela frequência das relações, ganhando imunidade. Os «outros» representariam uma ameaça, que podia ser por vezes letal, pelo que reconhecer quem pertencia a que grupo significava muitas vezes, literalmente, a diferença entre viver e morrer.

Daqui decorre que a identificação de quem é parte do «nós» seja, ainda hoje, muito importante e para facilitar o reconhecimento eram utilizados sinais que caracterizavam a aparência bem como traços característicos do comportamento, como a forma de saudar e a linguagem.

Isto nem nos devia surpreender porque, nos seres humanos, muitos fenómenos psicológicos parecem ter servido como respostas adaptativas, funcionando como mecanismo de defesa anti patogénica dado servirem de marcadores de sensibilidade de pertença.

Uma das implicações mais gerais, pugnam os investigadores, é a existência de diferenças ou variações culturais, em termos comportamentais e cognitivos, por parte dos seres humanos nas formas de reagir face à presença potencial ou relativa de agentes patogénicos na ecologia local.

Esta tese focaliza-se especificamente nas diferenças ao nível da dimensão cultural «Individualismo versus Coletivismo» e sugere que as manifestações específicas de «comportamentos coletivistas», como o etnocentrismo ou a conformidade, podem inibir a transmissão de agentes patogénicos. Verificou-se que o coletivismo, quando comparado com o individualismo, distingue mais vezes as culturas em determinadas regiões caracterizadas historicamente pelas altas prevalências de agentes patogénicos.

Esta perspetiva sugere que os valores culturais também possuem uma raíz evolucionista, tornando-se compatível com a abordagem culturalista e reforçando a ideia da co-evolução.

Agora parece que já sabemos porque é que o "açúcar é doce"!

[1] Nomeadamente num artigo intitulado “Pathogen prevalence predicts human cross-cultural variability in individualism/collectivism” (2009) de C. Fincher, R.Thornhill, D. Murray e M. Schaller, 2009 (Op. Cit.).

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