Porque é que o altruísmo não é o que parece?


Certos comportamentos socialmente muito valorizados podem, afinal, esconder outras razões que nem os próprios que os executam disso têm consciência. Mas a perspetiva evolutiva do comportamento humano ajuda-nos a compreendê-los.

Até há pouco tempo era difícil explicar comportamentos considerados altruístas (desde o auto-sacrifício à filantropia passando pelo altruísmo ou a generosidade cega em geral), quando os mesmos não podem (aparentemente) obter contrapartidas e significam mesmo um esforço ou custo, por vezes, bastante oneroso para quem os pratica. Do ponto de vista da biologia evolutiva, de resto, isto foi durante muito tempo um verdadeiro enigma difícil de resolver e até incompreensível.

Com o desenvolvimento da designada teoria da sinalização dos custos (TSC) lançou-se alguma luz sobre estes comportamentos aparentemente desprendidos de valor de troca, permitindo perceber como é que, afinal, não são tão desprendidos de reciprocidade e fazem sentido do ponto de vista evolutivo.

O chamado “princípio do handicap[i] integra-se numa teoria mais vasta (TSC ou sinalização dispendiosa) - que traduz, na sua origem, uma forma de comunicação animal. É sabido que alguns animais possuem e exibem certas características que, não obstante os tornarem vulneráveis aos predadores, comprovam o seu valor como bons parceiros para acasalamento. A demonstração da exuberante plumagem do pavão face às fêmeas ou das gazelas macho desafiando os tigres ou ainda as impressionantes hastes dos veados e alces são exemplos já clássicos.

O que a TSC propõe é que o altruísmo é bem entendível porque todos nós enviamos sinais (honestos) sobre nós mesmos e sobre a nossa qualidade genética, os recursos que possuímos ou a nossa capacidade de acesso aos mesmos ou, ainda, a nossa natureza cooperativa. Tudo isto são aspectos difíceis de falsificar e podem representar de diferentes formas, diferentes benefícios para quem os exibe, seja no curto, médio ou longo prazo. Daí a designação da “sinalização honesta dos custos”.

Dito de uma forma mais simples, do ponto de vista evolutivo, a TSC explica bem os comportamentos altruístas (particularmente os que saem do círculo do parentesco), porque todos os comportamentos ou características que são onerosos para os seus detentores (e por isso são difíceis de falsificar), tendem a ser uma forma honesta de sinalização das qualidades, características e recursos dos seus possuidores

Esta teorização consegue, assim, uma explicação viável para muitos comportamentos que de outra forma seriam difíceis de entender e explicar.

Percebe-se melhor agora como a filantropia, por exemplo, um dos mais comuns sinais dispendiosos para quem a pratica, acaba por revelar o status e a posição social de quem é capaz de a praticar, especialmente nas sociedades ocidentais e ricas.

Sugere-se que a filantropia e o altruísmo, em geral, não são mais do que uma exibição de um comportamento conspícuo que reforça o status e mostra os recursos, utilidade e qualidade de quem o pratica.

No fundo, se e quando alguém pode dar-se ao luxo de gastar, doar ou oferecer, uma grande quantidade de recursos financeiros (ou outros), de uma forma que parece ser perfeitamente suportável ou até mesmo irrelevante para os interesses próprios daqueles que dão, então os recursos que esses doadores possuem serão, certamente, abundantes e de grande valor.

Ao fazê-lo, quem o faz, envia sinais honestos das suas capacidade, qualidades e valor enquanto "ativo", seja como parceiro ou aliado. Os benefícios podem não ser imediatos nem sequer diretos ou aparentemente proporcionais. Podem perfeitamente ser em diferido ou indiretos e contribuir para a reputação daquele que pratica o gesto altruísta, tornando-se aos olhos dos outros alguém com “valor inclusivo” e, em caso de necessidade, alguém que se deve ajudar também. Confirma-se que não há mesmo nenhuma refeição "grátis"!

Desencantado? É natural. As coisas não são aquilo que parecem.

Ninguém disse que o eram.

[i] Formulado pelo biólogo Amot Zahavi. Para saber mais Vd. Zahavi, A., (1997). The Handicap Principle. Oxford: Univ. Press.


Referências

Boehm, C. (1999). The natural selection of altruistic traits. Human Nature, 10, 205–252.

Boone, J.L. (1998). The evolution of magnanimity: When is it better to give than to receive? Human Nature, 9, 1–21.

Grafen, A. (1990). Biological signals as handicaps. Journal of Theoretical Biology, 144, 517–546.

Hamilton, W.D. (1964). The genetical theory of social behavior: I and II. Journal of Theoretical Biology, 7, 1–32.

Sober, E., & Wilson, D.S. (1998). Unto others: The evolution and Psychology of unselfish behavior. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Trivers, R.L. (1971). The evolution of reciprocal altruism. Quarterly Review of Biology, 46, 35–57.

Wilson, D., & Kniffin, K. (1999). Multilevel selection and the social transmission of behavior. Human Nature, 10, 291–310.

Zahavi, A., (1997). The Handicap Principle. Oxford: Univ. Press.

Zahavi, A. (1977). Reliability in communication systems and the evolution of altruism. In B. Stonehouse & C.M. Perrins (Eds.) Evolutionary ecology (pp. 253–259). London: MacMillan Press.