Porque é que o "vício"​ dos telemóveis não é o que parece!

O vício dos smartphones, ou quando as coisas não são o que parecem!

Muito tem sido dito sobre o aparente “vício” do uso dos telemóveis, da Internet e das novas plataformas de comunicação social que nos interligam, acusadas de, simultaneamente, nos tornarem solitários com consequências adversas várias, mesmo em termos de saúde mental, segundo alguns. Mas será mesmo assim?

É que, na verdade, a utilização tanto dos telemóveis como da Internet ou das redes sociais o que faz é destacar a natureza profundamente pro social dos mecanismos que estão por trás do seu uso.

O que pretendo também sugerir, é que aquilo que parece ser um uso compulsivo dos smartphones não é, na verdade, anti-social, mas profundamente social. O aparente “vício” nas tecnologias de comunicação móvel, ao contrário do que parece, é impulsionado por um profundo desejo humano de ligação e contacto com os Outros. E isto é algo que atinge profundamente os nossos cérebros sociais e vai muito longe ao nosso passado e à nossa evolução.

Numa recente investigação exaustiva à principal literatura sobre o tema do “vício” do telemóvel e das tecnologias de informação em geral,[1] conclui-se que aquilo que se considera ser o uso "disfuncional" não apenas dos smartphones mas de outras plataformas de relacionamento social com tecnologia inteligente, não resulta, afinal, de nenhuma espécie de "disfuncionalidade" humana, antes pelo contrário.

Através das lentes evolutivas, a análise sugere que as funções aparentemente mais viciantes seja do uso dos smartphones, da navegação na Internet ou da interação através das redes sociais, compartilham um tema comum: todas convergem com o desejo humano de se ligar e comunicar com outras pessoas.

No fundo, é porque nós, seres humanos, evoluímos para sermos uma espécie hipersocial, que necessitamos de estar em constante contacto com os outros. E porquê? Porque isso fornece-nos pistas importantes para navegarmos de modo culturalmente adequado nos contextos onde nos inserimos ou queremos vir a estar inseridos e, sobretudo, estar atentos ao que se passa no ambiente à nossa volta. Mais; esta forma de hipersociabilidade pode ser também uma forma de encontramos algum significado e conferirmos algum sentido de identidade, como defendem os investigadores, Veissière e Moriia, do departamento de Psiquiatria da Universidade McGill.[2]

Assim, se adotarmos uma análise evolutiva do uso dos smartphones verificamos que, afinal, a sua utilização não reflecte, nem resulta, de nenhuma espécie de “obsessão” nem de nenhuma tendência para o isolamento nas sociedades modernas e hiperligadas. Pelo contrário. Parece resultar de uma profunda mudança no contexto psicossocial em que a experiência humana é invariavelmente enquadrada no novo ambiente evolutivo. Não são, portanto, os telemóveis que são "viciantes", mas sim a nossa hiper sociabilidade ou o desejo e a necessidade de estar ligado a...

Esta característica “hiper prosocial” da nossa espécie é um traço fundamental da própria evolução humana que antecede em centenas de milhares de anos os telemóveis ou qualquer outra forma de comunicação à distância. Dito de uma forma mais simples e direta: aquilo que parece ser um vício de utilização dos telemóveis não é, de modo algum, anti-social. Pelo contrário! É hiper-social.[3]

Desde as mensagens de texto, aos e-mails, passando pelas notícias dos media online até às redes sociais, tudo isto consegue fornecer às pessoas uma plataforma de conectividade e monitoragem social e responde a duas necessidades básicas e profundas.

Primeiro, responde à necessidade evolutiva dos indivíduos se sentirem “ligados."

Segundo, responde à sua necessidade de monitorar os outros e de serem também notados, vistos, ouvidos e reconhecidos. Os investigadores designam este fenómeno como a “hipótese de monitoragem hiper social”! [4]

Portanto, é a nossa dimensão social em termos de expectativas e recompensas pelo facto de estarmos ligados com outras pessoas e procurarmos aprender com os outros, aliada à nossa necessidade de constante monitoria do ambiente, que induz e sustenta a relação aparentemente "viciante" com os telemóveis e outros meios de contacto e interação virtual.

Por isso, as coisas nem sempre são o que parecem. Aliás, será que alguma vez são?


Referências (para quem queira saber mais)

Alter, A. (2017). Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping us Hooked. London: Penguin Books.

Boyer, P. (2008). Religion Explained. New York, NY: Random House.

Dunbar, R. I. (2004). Gossip in evolutionary perspective. Rev. Gen. Psychol. 8, 100–110. doi: 10.1037/1089-2680.8.2.100

Henrich, J. (2016). The Secret of Our Success: How Culture is Driving Human Evolution, Domesticating our Species, and Making us Smarter. Princeton, NJ: Princeton University Press.

Li, S., and Chung, T. (2006). Internet function and internet addictive behavior. Comput. Hum. Behav. 22, 1067–1071. doi: 10.1016/j.chb.2004.03.030

Tomasello, M. (2009). Why We Cooperate. Cambridge, MA: MIT press.

Tomasello, M. (2014). A Natural History of Human Thinking. Cambridge, MA: Harvard University Press. doi: 10.4159/9780674726369

Veissière, S. (2016). “The internet is not a river: space, movement and personhood in a wired world,” in Click and Kin: Transnational Identity and Quick Media, eds M. Friedman and S. Schultermandl (Toronto: University of Toronto Press).

Veissière, S.. & Stendel, M. (2018). Hypernatural Monitoring: A Social Rehearsal Account of Smartphone Addiction. Front. Psychol., 20 February 2018 | https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.00141

[1] Veissière, S.. & Stendel, M. (2018). Hypernatural Monitoring: A Social Rehearsal Account of Smartphone Addi

ction. Front. Psychol., 20 February 2018 | https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.00141 (Op. Cit.)

[2] Op. Cit.,. e cujo estudo aqui resumo e partilho.

[3] Boyer, P. (2008). Religion Explained. New York, NY: Random House.

[4] Isto na verdade não é totalmente novo. Robin Dunbar havia já proposto que uma das razões da origem e desenvolvimento da linguagem humana terá sido a "necessidade do mexerico" como forma de controlar e fazer parte das redes sociais. Vd. Dunbar, R. I. (2004). Gossip in evolutionary perspective. Rev. Gen. Psychol. 8, 100–110. doi: 10.1037/1089-2680.8.2.100

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Krisis

Krisis significa originalmente decisão. É um termo grego importado da medicina significando o momento decisivo ou de viragem que possibilitava o diagnóstico. Nos tempos atuais, curiosamente, a noção d

Teorias da conspiração

O que motiva as pessoas a acreditar em  "teorias da conspiração"? 1) Gostamos de boas histórias; 2) Não gostamos de explicações simples para problemas complexos; 3) Necessitamos de compreender o mundo