Porque é que somos tão pessimistas? Ou, o narcisismo das exceções!

É verdadeiramente surpreendente que a maioria das pessoas considere que o mundo esteja “pior” ou "a piorar" e que continuemos com uma visão tão distorcida da realidade dando sempre mais primazia ao que há de negativo do que de positivo e às diferenças e exceções do que às semelhanças, não obstante as evidências do seu contrário.

Pelo menos é o que parece indicar uma pesquisa realizada em 2016 junto de uma amostra considerável de 20.000 pessoas nalguns dos países mais ricos do mundo.

Em resposta à pergunta "Tudo considerado, acha que o mundo está a ficar melhor, pior, ou na mesma"?” os resultados são verdadeiramente surpreendentes, já que apenas 10 % na Suécia, 6% nos EUA, 4% na Alemanha e 3% em França considerou que as coisas no mundo estavam a melhorar.

Estes dados ainda se tornam mais estonteantes se considerarmos o que aconteceu na último década (2010-2019) ao nível global, como mostra a tabela que se segue.


Fontes Diversas (Vd. referências)



Foi a propósito disto que me lembrei de Sigmund Freud, um dos fundadores da moderna psicologia, que apelidou de "narcisismo das pequenas diferenças", o sentimento segundo o qual quanto menores são as diferenças entre as pessoas, mais sintonizados estamos com elas e, provavelmente, mais dispostos estamos também a destacá-las e a lutar por elas. Por outras palavras, numa superfície impecavelmente limpa, qualquer pequena sujidade torna-se irritantemente destacável tal como numa organização perfeita, qualquer desorganização nos irrita ou ainda como num arranjo bem ordenado, qualquer desarranjo capta a nossa atenção.

De resto, sabemos pelas investigações[1] que tendemos a dar importância a tudo o que capta a nossa atenção, apenas porque a capta, e se consegue captar a nossa atenção logo deve ser importante, mesmo que venha a revelar-se inútil.

Entre os três principais fatores que captam a nossa atenção estão o perigo e a novidade (o primeiro é o sexo). É por isso que, num primeiro instante, toda a notícia capta a nossa atenção porque pode ser portadora de sinais de perigo. É, e sempre foi, uma questão de sobrevivência. Precisamos de saber o que se passa à nossa volta, seja perto, seja longe.

Efetivamente, e apesar dos significativos progressos que a nossa espécie fez nos últimos duzentos anos, o que não chega a ser um piscar de olhos no nosso tempo evolutivo, continuamos diariamente a dar mais importância a tudo o que é “excecional“ e a subavaliar o enorme progresso ao nível do grande puzzle da realidade e da vida coletiva. Mesmo estando de acordo em muitas coisas, tendemos a destacar e a dar mais importância às pequenas diferenças do que aos grandes consensos e tendemos também a considerar a "exceção" como a "regra".

Porém, se olharmos com alguma atenção para as estatísticas que possuímos verificamos inegáveis e enormes progressos nos principais indicadores e dimensões da vida coletiva dos seres humanos.

Desde a enorme diminuição da pobreza extrema até à mortalidade infantil, passando pelo aumento extraordinário dos níveis básicos de educação e literacia, até à vacinação e à adoção da democracia, podemos claramente afirmar que o mundo é hoje um lugar muito melhor para viver e que nunca houve uma época tão boa para nascer como a de hoje.

A suposição muito difundida segundo a qual as coisas estão piores ou simplesmente mais difíceis atualmente, é uma variante daquilo a que os sociólogos designam por "falácia da era dourada». Trata-se de uma suposição especialmente estranha (e errada) afirmar que as coisas estão piores, apesar dos factos visíveis de que nas nossas sociedades avançadas, vivemos notavelmente não só durante mais tempo, como muito melhor, e as nossas expectativas são de que assim continuaremos.

Portanto, se tiver existido uma qualquer «era dourada», é muito mais provável que seja agora, no nosso tempo, do que em épocas passadas.

Fonte: Our World in Data



Vejamos alguns exemplos factuais. A pobreza extrema global diminuiu de uns aflitivos 85% da população mundial, em 1800, para menos de 10% na atualidade. Se esta tendência se mantiver assim, isso significará que a pobreza extrema será erradicada até 2030[2].

Em 1997, 42% das populações da Índia e da China viviam na extrema pobreza. Porém, apenas vinte anos depois (2017) na Índia, essa percentagem caiu para 12% e na China para um impressionante 0,7%.[3] Só nas últimas 24 horas, mais de 150.000 pessoas saíram da pobreza extrema. Alguém notícia isso?



Fonte: Human Progress, 2019



Vejamos outro domínio da realidade atual com grande impacto nas nossas vida e na nossa mobilidade e que tem registado enormes progressos: o número global de voos comerciais em 2004 foi de 23,8 milhões e em 2018 alcançou o impressionante número de 46,1 milhões.


Fonte: to70.com


Mas o mais impressionante é que em 2018 o ratio de acidentes por voo foi de 1,35 por cada milhão de voos, o que significa 1 acidente por cada 740.000 voos.


Fonte: IATA, 2019


E em 2019, morreram 257 pessoas em apenas 8 acidentes aéreos fatais. A probabilidade atual de um acidente aéreo num qualquer voo comercial de passageiros é de 1 para 16.000.000, o que nos leva a concluir que nunca foi tão seguro andar de avião como hoje.[4]

Contudo, qualquer acidente aéreo abre os noticiários televisivos e preenche os cabeçalhos dos jornais e das notícias. Porque é que isto acontece?

Ao que parece é porque, por um lado, somos pessimistas por natureza e, por outro, a tendência dos media para destacar apenas aquilo que é raro, excecional, negativo e dramático, em vez de também nos informarem sobre o global e as tendências de longo prazo, é uma das razões pelas quais o público tem uma visão tão distorcida, negativa e stressante acerca daquilo que se passa no mundo.

Claro que devemos registar aquilo que é diferente e excecional. Mas se esse for o único foco e de forma excessiva, sobretudo naquilo que é dramático, isso acaba por distorcer a nossa visão da realidade global que também existe e continua a reforçar a nossa tendência para dar atenção e primazia a tudo aquilo que seja destacado, apenas ... porque o é!

Claro também que a nossa natureza é, provavelmente, o primeiro fator desta visão tão negativa e pessimista da realidade e os meios de comunicação social refletem isso e encarregam-se de a reforçar.

De resto, este pessimismo já vem de longe. Em inscrições muito antigas descobertas e datadas de 3.800 a.C., encontraram-se frases como: "caímos em tempos difíceis; a política é corrupta e o tecido social está a degradar-se". Reconhece isto? Muitas pessoas expressam pensamentos muito semelhantes hoje e as notícias espelham isso.



A natureza do chamado "jornalismo negativo". Reunião matinal na CNN para decidir sobre aquilo com que os espectadores devem entrar em pânico durante o resto do dia :). Fonte: The Onion https://lnkd.in/gAEJqgc

A nossa necessidade de permanentemente monitorar o nosso ambiente procurando saber o que se passa, o que é novo e potencialmente perigoso, está na origem tanto do nosso pessimismo como das próprias notícias que tanto mais impacto têm quanto mais nos assustarem.

Daí a razão do “sucesso” das redes sociais e de tudo aquilo que veiculam, mesmo sendo muitas vezes falso, conspiratório e até patológico. A necessidade de saber o que os outros dizem, disseram ou tencionam dizer, o que fazem, fizeram ou tencionam fazer, o que dizem pensar ou ter pensado, está na base das notícias, sejam elas editadas ou não.

Acredito que esta visão não seja tão «romântica» como eventualmente pensava, mas as notícias, a informação que circula nos media, nos blogues e nas redes sociais, sobre o que os outros pensam, fazem e dizem, não são, nem se devem a um qualquer «direito a ser informado ou a informar», como habitualmente e de forma politicamente correta e socialmente aceitável, ouvimos justificar a atividade jornalística, em geral. Afinal, trata-se simplesmente de uma necessidade fundamental resultante do nosso cérebro social e da nossa programação para sobreviver.

Ao darmos mais importância às exceções e às diferenças noticiadas acabamos por perder o foco no global, nas regularidades e padrões e nos consensos já alcançados.

Talvez uma das razões que esteja na origem da falta de consciência dos progressos coletivos da nossa espécie tenha a ver com o mito de Narciso segundo o qual, conforme vaticinado pelo seu adivinho contemporâneo, ele teria vida longa desde que jamais contemplasse a sua própria figura.

Estaremos a cumprir o mito?



Notas:

[1] Cialdini, R. (2016). Pre-suasion. New York: Simon & Schuster; Coultas, J. (2004). When in Rome .... An Evolutionary Perspective