Quer compreender o comportamento das pessoas? Então não pense nelas como pessoas!


Pode parecer estranho, eu sei, mas de facto, do ponto de vista científico, parece ser mesmo assim. Temos tendência para "antropomorfizar "não apenas os outros animais mas também as próprias pessoas!! Porém, se queremos perceber "porque é que as pessoas fazem o que fazem" não devemos pensar nelas como pessoas mas sim como sistemas adaptativos!


Por exemplo, imagine que você despeja uma garrafa de água em dois copos mas num deles está escrito “água com veneno” e no outro "água normal" e depois convida as pessoas que estão a assistir a escolherem um dos copos para beberem a água deitada por si; não fique surpreendido se, mesmo tendo elas assistidos a você despejar a água da mesma garrafa, ninguém escolha o copo que tem o rótulo a dizer “água com veneno”. Todas as pessoas escolherão provavelmente o outro copo.


Outro exemplo: você habitualmente compra um pacote de arroz por semana. Porém, no dia em que vai ao supermercado fazer as compras habituais, ao pegar no pacote que habitualmente também compra, repara num aviso a dizer “máximo 3 pacotes de arroz por pessoa”. Quantos pacotes pensa que comprará nesse dia? Exacto!


A razão tem a ver com facto de o nosso cérebro possuir e activar mecanismos adaptativos e defensivos que se desencadeiam em função dos estímulos e pressões do ambiente, independentemente da própria vontade e intenções do indivíduo. Estes mecanismos designam-se como “sistemas de inferência intuitiva”[1].


Mas atenção: não pense na palavra intuição como algo inexplicável, místico ou selvagem. A nossa capacidade de intuição resulta de uma enorme computação feita pelo nosso cérebro onde entram todas as variáveis que possamos encontrar incluindo muitas das quais não temos consciência.


Estes sistemas e mecanismos referem-se a “domínios específicos” como lhe chamam diversos investigadores[2] e servem para analisar e resolver problemas adaptativos permitindo a nossa decisão, certa ou errada! Na maior parte das situações funcionam fora da nossa própria consciência e são adaptações que a evolução produziu ao longo do percurso da nossa espécie.


E de onde vem, afinal, esta nossa inclinação para tentar explicar os comportamentos das pessoas pensando conseguir "ler" as suas intenções e compreender as suas crenças? Vem de um pressuposto (errado, a meu ver) segundo o qual as pessoas conhecem todas as suas intenções e têm acesso a elas. Mas pode não ser bem assim! Aliás. Não é mesmo bem assim!


Sobre isto, o filósofo Daniel Dennet refere que quando queremos compreender e explicar o comportamento humano, temos tendência para adotar uma "postura centrada na intencionalidade" e nas crenças dos indivíduos, em vez de possuirmos uma "postura centrada no design e nos processos do nosso cérebro". E esta mudança na postura explicativa não é nada intuitiva, chocando muitas vezes as pessoas quando o afirmo.


Note-se que quando refiro o termo design não tem subjacente nenhuma entidade mística que seja uma espécie de designer. O design do cérebro a que me refiro, resulta de um longo período de adaptação que começou há mais de 6 milhões de anos, desde que nos separámos dos grandes símios, desenvolvendo e mantendo verdadeiros "módulos de domínio específico" para resolver esses mesmos problemas de "domínio específico" também.


E é este processo evolutivo que é responsável pela modelagem do cérebro e dos mecanismos de adaptação específica que atuam em nós, sem disso nos apercebermos.

Em suma: no seu dia a dia, naturalmente, lide com as pessoas como pessoas! Convém!

Mas se quer realmente compreender e descodificar o seu comportamento, pense nelas como sistemas...adaptativos! Isso é outra "história"!


Referências

[1] Vd. Sobre este tema P. Boyer, 2018, D. Kenrick

[2], L. Sugiyama, J. Tooby, L. Cosmides, S. Kanazawa,

J. Barkow, P. Boyer, R. Boyd, R., P. Richerson, entre outros. Ver também Tooby

& Cosmides, 1992.

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