Será a confiança um «Bem Público»?


Nalguns debates sobre a confiança, esta tanto é tratada como uma questão de expectativa e avaliação dos outros, como é tratada como um «bem» em si no sentido económico de ser uma mercadoria (commodity) tal como os que se adquirem no mercado, e mesmo um bem público, quando a maioria das relações de rotina funciona com base na confiança implícita e como valor intrínseco numa sociedade.

Nestes debates, a confiança tende a ser teorizada de um modo que parece algo quase «palpável», algo que se pode criar, medir e destruir, usar ou não, tal como se cria e destrói capital e outros bens e ativos de vários géneros.

Há aqui, portanto, dois modos possíveis de considerar a confiança.

O primeiro é considerar a confiança como um «bem», ou seja, esta pode ser, equiparada a uma «mercadoria».

O segundo, é encarar a confiança como um bem que é parte do «capital social» que possibilita aos grupos (e mesmo sociedades inteiras), cumprir vários propósitos.

Nestes debates, a verdadeira preocupação parece ser, na verdade, a confiabilidade (e não tanto a confiança) que pode ser uma mercadoria entre redes sociais relevantes e que de resto é, pelo menos, o pano de fundo do capital social.

Se não existisse confiabilidade, seria estranho, provavelmente, supor-se que a confiança é um bem moral e que seria uma mercadoria apenas para os outros que a pudessem explorar, não para aquele que confia (o confiante). Por seu turno, se não existisse confiabilidade, a confiança não constituiria qualquer parte de capital social, porque não possibilitaria objetivos sociais maiores, mas tão-somente, oportunidades para aproveitamento de uma «confiança equivocada».

Talvez «o confiar» seja um resultado de uma evolução social de um mundo anterior menos complexo, no qual as interações eram suficientemente densas para fundamentar a confiança, e isso funcionaria porque muitos de nós talvez vissem que a confiabilidade era do nosso interesse, e a nossa confiabilidade geraria, em resposta, a confiança dos outros.

Além disso, numa pequena comunidade, na qual as ações de todos são relativamente públicas, os que não cooperam podem ser evitados até aprenderem que a sua cooperação é benéfica, não só para os outros, mas também para si próprios. Podemos então imaginar, que uma sociedade mais complexa surge a partir desta sociedade bem regulada para produzir pessoas que, mesmo que apenas instintivamente, compreendem que têm de ser dignas de confiança se quiserem beneficiar das relações com os outros.

Do ponto de vista evolucionista, alguns autores (Henrich & Henrich, 2007), consideram que a confiança evoluíu, e pode sempre evoluir, em circunstâncias em que a seleção disso tira vantagens. Defendem estes cientistas que confiança evolui sempre que os envolvidos (confiante e confiabilizado) cooperam com outros «confiáveis» e produzem uma confiança mutuamente vantajosa. A equação que descreve esta situação, embora noutro contexto, foi batizada como «Regra de Hamilton» (o seu criador): β b> c

Em que c) é o custo pago pelo «confiabilizado» para produzir o benefício b) para o «confiante». O símbolo β traduz a relação estatística designada «coeficiente de regressão».

Basicamente mede a probabilidade de a relação de confiança perdurar se ambos os envolvidos (aquele que confia e aquele em quem se confia) continuarem a produzi-la como um «bem» mutuamente vantajoso.

Quanto mais se repetir a interação nestes termos (entre os mesmos «agentes»), maior a quantidade de confiança que pode ser sustentada, porque ambos recebem uma quantidade de benefícios superior aos custos que «pagam».

É caso para dizer como o humorista Michael O'Brien que "a confiança é contagiante e a falta dela, também"!



2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Krisis

Krisis significa originalmente decisão. É um termo grego importado da medicina significando o momento decisivo ou de viragem que possibilitava o diagnóstico. Nos tempos atuais, curiosamente, a noção d

Teorias da conspiração

O que motiva as pessoas a acreditar em  "teorias da conspiração"? 1) Gostamos de boas histórias; 2) Não gostamos de explicações simples para problemas complexos; 3) Necessitamos de compreender o mundo