Um sistema inacabado!

Uma das falácias muito comuns com que me deparo habitualmente quando abordo a questão das diferenças culturais do ponto de vista evolutivo, tem a ver com o facto de algumas pessoas acreditarem que existe uma dicotomia entre o inato e o adquirido que não só é insolúvel como separa a cultura humana nas suas múltiplas variações do processo geral da Evolução. Compreendo que a ideia possa ser intuitiva mas, lamento dizê-lo, nada mais errado!

O facto de os comportamentos humanos variarem ao longo e através das diferentes culturas, não significa que não sejam produtos da Evolução. As variações culturais não anulam o “sistema operativo” que é a Natureza Humana. É aliás sobre este e através deste que se edificam as ditas variações culturais.

A psicologia evolutiva não propõe que os comportamentos humanos, sejam eles individuais ou coletivos, devam ser uniformes, padronizados ou de alguma forma iguais em todas as culturas, mas sim que a maquinaria neuro cognitiva que os suporta, essa sim, é uniforme. Não é uma questão de opinião.

Vejamos um exemplo. Pensemos na linguagem ou, em bom rigor, na diversidade de línguas existentes no mundo, traduzida atualmente em mais de sete mil línguas vivas.[1]

Como sabemos, nenhum de nós vem equipado para falar uma língua específica. Nós simplesmente crescemos em diferentes culturas pelo que falamos, naturalmente, línguas diferentes. Isto não significa que a nossa capacidade linguística não seja um fruto da Evolução. Apenas significa que, por seleção natural, produziu-se no nosso equipamento mental a capacidade universal para aprender a falar línguas. Quaisquer que sejam.

Falaremos aquela que aprendermos e que depende do contexto onde crescermos.

Como refere um dos maiores biólogos evolutivos (Mayr, 2001), o ser humano é um “sistema aberto” e é justamente por causa dessa “abertura” que adquire o "código cultura" que o completa. Na verdade, sem esse código (cultura) seremos como um outro animal qualquer.

A cultura, enquanto programa mental coletivo, como o propõe G. Hofstede (1984), pode, na minha perspetiva, ser também entendida como parte da biologia humana, porque o indivíduo vem naturalmente equipado para adquirir um qualquer software mental, sem o qual não se desenvolverá. Por isso gosto de considerar o ser humano um sistema inacabado, pronto a ser completado pelo contexto onde crescer.

Mas vejamos um outro exemplo. Todos nós vimos equipados com mecanismos que nos orientam para a procura de estatuto, prestígio e outras formas de status ou reconhecimento social. Porém, e mais uma vez, os sinalizadores de status não são os mesmos em todos os contextos ou culturas, como todos bem sabemos.

Deste modo, o que os seres humanos precisam é de conseguir saber prestar atenção, em cada contexto específico, aos marcadores de status também específicos do seu contexto, para assim conseguir captá-los, aprendê-los e adquiri-los.

No fundo, os mecanismos psicológicos subjacentes é que são comuns a todos os seres humanos, e é ao conjunto desta "arquitetura mental" moldada pela evolução que se chama natureza humana, a qual constitui o nosso programa base ou, se quisermos, o nosso "sistema operativo”.

Portanto, as variações culturais dos comportamentos coletivos, possuem uma base comum que tem a ver com os mecanismos neuro cognitivos que geram esses mesmos comportamentos e permitem essas variações coletivas.

Uma outra forma de entender isto é através do conceito de "cultura evocada" que se refere às diferenças culturais entre os grupos e que surgem a partir da combinação de um mecanismo psicológico universal com in-puts ambientais. Estes últimos diferem entre culturas porque os ambientes também diferem. Alguns autores sugerem mesmo que se pode traduzir esta ideia através de uma espécie de equação informal muito simples e com a seguinte forma: mecanismos psicológicos universais + inputs ambientais que diferem entre culturas = resultados comportamentais que diferem entre culturas (valores culturais, por exemplo).

Infelizmente, na minha opinião, a perspetiva tradicional e a ideia de "Cultura" nas ciências sociais, em geral, tem-se baseado quase exclusivamente na crença de que a cultura, pelo facto de ser transmitida horizontal e verticalmente, está dissociada da nossa biologia. Foi com base nesta ideia, aliás, que progressivamente se retirou o Homem da natureza.

É por isso que dois conceitos aqui são importantes: o de "cultura evocada" e o de "cultura transmitida".[2]

O conceito de cultura evocada proposto por Leda Cosmides (1995) [3]  traz a biologia "de volta", reinserindo o Homem na natureza, uma vez que identifica os desafios ecológicos que evocaram certas práticas baseadas em imperativos evolucionistas.

Vejamos outros exemplo. O caso da chamada “distância ao poder” (Hofstede, 1990). Independentemente de umas culturas, comparativamente, pontuarem mais e outras menos nessa dimensão, todas elas têm o mesmo problema comum para resolver que se sintetiza nesta questão: até que ponto os indivíduos numa cultura (ou pela mesma razão, numa organização), aceitam e esperam que o poder seja e esteja desigualmente distribuído?

Portanto, em todas as culturas, embora em graus diferentes, existe uma expectativa e uma aceitação emocional da inevitabilidade da desigualdade.

No fundo, a valorização da cultura evocada complementa a cultura transmitida e tem o mérito de conseguir aprofundar e ampliar a nossa compreensão da vida cultural e das diferentes práticas no quadro da Evolução.

Talvez seja tempo de alterarmos a visão dominante da relação entre a Natureza e a Cultura. Afinal, como referiu S. Moscovici, «tudo nos incita a pôr termo à visão de uma natureza não humana e de um homem não natural.»

Acho que ele o disse de forma eloquente!


[1] Para saber mais obre a relação entre a biologia e a diversidade linguística ver https://www.academia.edu/8652559/Why_are_there_so_many_different_languages_in_the_world_Could_Historical_Pathogen_Prevalence_Predicts_Human_Language_Diversity_An_evolutionary_view_of_language_diversity

[2] Os comportamentos culturais evocados são aqueles que resultam de mecanismos psicológicos compartilhados em resposta a sugestões ou estímulos ambientais locais e os comportamentos culturais transmitidos são aqueles que são aprendidos a partir de um grupo social, independentemente do meio ambiente.

[3] Para saber mais ver Tooby, J.; Cosmides, L. (1995). Barkow, J.H.; Tooby, J.; Cosmides, L. (eds.).The Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture. Oxford University Press e também Fessler, D.M.T.; Clark, J.A.; Clint, E.K. Buss, D.M. (ed.). The Handbook of Evolutionary Psychology. Wiley. pp. 1029–1046).